segunda-feira, 16 de maio de 2005

Irmã mais velha

Numa manhã de Agosto o meu irmão chega ao pé de mim com ar submisso.
Estranhei o ar e estranhei estar acordade tão cedo - pois, porque o menino perde as noites em férias.

Encosta-se ao balcão da cozinha enquanto eu preparava o meu pequeno-almoço e começa a perguntar-me se não me importava que uma rapariga lá fosse tomar um duche e o pequeno-almoço.
Devo ter abrido os olhos de espanto. Uma rapariga?! Quem?! Porquê?!

Contou que o amigo dele, o N., tinha passado a noite no carro com uma rapariga e que ela era holandesa e precisava de, pelo menos, tomar um duche.
Achei muito estranho mas não pestanejei. Claro que podia tomar um duche.

Pouco tempo depois entram os dois com ar atrapalhado.
Ela era uma holandesa típica. Era simpática, mas muito tímida.
Tentei deixá-la à vontade, mostrei-lhe a casa, falei um bocadinho com ela, mas ela tinha o ar de uma menina pequena que tinha acabado de fazer uma grande maldade.
Dei-lhe o pequeno-almoço e ela começou a falar-me mais à vontade. Já se ria.

Ele, o N., não dizia nada. E só a custo tirava os olhos do chão.
Enquanto ela se vestia para irmos para a praia, quis saber o que era aquilo.
Ele contou-me que se tinham conhecido num chat, que falaram durante umas semanas, que ele a convidou para vir cá e ela veio (?!).
Disse-me que durante esse tempo nunca tinham falado de nada realmente pessoal, que quando a viu cá percebeu que não a conhecia. Que tinha pensado literalmente numa conquista e que tinham acabado por passar a noite toda no carro sem que tivesse acontecido o que quer que fosse. Que nem sequer falavam!

Vi que era a minha oportunidade. Vesti a pele de irmã mais velha (3 anos mais velha) do amigo, e passei-lhe um enorme sermão sobre a irresponsabilidade dele (a dela não era menor!).
Disse-lhe que era inaceitável que as pessoas se metessem em coisas dessas: falar com estranhos?!
Que as pessoas tinham que ser responsáveis e blá blá, blá blá...

Foram os três, como patinhos, comigo para a praia.
Voltaram comigo para casa. Almoçámos. Eu insistia para eles - o meu irmão e o amigo - falarem em inglês para ela perceber. Mas era complicado.
Ela era equitadora. À tarde lá fomos para um Centro Hípico que fica lá muito perto.
Voltámos ao fim do dia, jantaram lá em casa e depois ele foi deixá-la em Lisboa onde uns amigos estavam à espera dela.

Ficámos amigas.
Durante meses ela perguntava-me por ele e eu dava respostas evasivas.
Um dia ela irritou-se, com ele. Mudou o número de telefone, o contacto no MSN e o email. Não mudou de morada mas ele também nunca se lembrou de lhe escrever.

Recentemente ele começou a insistir comigo para lhe dar o contacto dela.
Um destes dias, em que já estava cansada, voltei a dar-lhe outro sermão, com o mesmo conteúdo. Ele, que sempre me tinha ouvido sem ripostar, volta-se para mim e pergunta-me:

Olha lá! E tu nunca falas com ninguém que não conheces na internet?

Engoli em seco. Disse que não própriamente. Que até falava com algumas pessoas mas que as conhecia porque conhecia os blogs e que isso era diferente de falar com pessoas de quem não se sabe nada. E que nunca tinha ido de um país para outro atrás de uma pessoa de quem não sabia rigorosamente nada.
Mas, em consciência, achei melhor calar-me! Esta capa de irmã mais velha já não me estava a assentar muito bem.
Ainda assim hesitei durante uns dias sobre se devia, ou não, dar-lhe o contacto da A. Até que me ocorreu, esta manhã, uma ideia brilhante: agarrei no telefone e perguntei-lhe o que devia fazer. Resposta:

Tell him! Please!

Ora! Se eles querem, quem sou eu para contrariar?!

17 comentários:

Emma disse...

Já deste o numero?! :)
Na minha opinião, os chats são mais impessoais.
Os blogs são um local nosso, um local onde escrevemos muito sobre nós e acaba por transparecer o nosso interior, acho mais confiavel. É mais facilmente detectavel a mentira, digo eu?!
Temos de estar preparados para a geração dos nosso filhos, em que o conhecimento virtual fará parte do seu quotidiano.
O melhor mesmo, é nós também nos mantermos por aqui... :)
Beijos,
Emma

Costinhas disse...

hehehe

Às vezes até as irmãs mais velhas têm de engolir em seco!!!

Beijinhos
Sandra

ana disse...

Mas é a mesma coisa.... às vezes também penso nisso, porque podemos encontrar pessoas com más intensões. Mas eu ainda vivo num mundo cor de rosa e sei que essas coisas não me vão acontecer.
Jinhos

Ana disse...

EU acho que os blogs sao bastante pessoais e quando nao o sao é facil ver... uma vez que vistas o casaco de irma mais velha, é dificl tira-lo... eu sei... jokas

Kwan disse...

Bolas, por isso é que eu não falo com estranhas!! ;)

Vilma disse...

Pois, são os tempos... antigamente era por correspondÊncia... agora são os blogues e os chats...

Tia Moky disse...

Olá, Margarida!

Abriste-me os olhos!!
A minha mãe fala muito através do chats, marca encontros, vai a jantares, em suma, diverte-se imenso e conhece montes de gente!! Eu sempre torci o nariz...mas eu não faço o mesmo!? Não era eu que estava na estação do Oriente quando blogueira Teresa, que veio à capital, estava a apanhar o comboio para casa?! Não era eu que estava na baixa com a Mãe-vagem e a linda Sofia?! Não era eu que, junto com o meu sobrinho, estava num blogonique?! Pôxa!! É a velha máxima "comigo é diferente"...uma ova!! lol
Obrigada!

Beijos Tia Moky

Filipa disse...

Ora bem! Deixa-os lá...se é da vontade de ambos...


Beijos mil

OlhoVivo disse...

Nem sempre aquilo que é diferente, é mau :) Beijinhos :)************

nadiasm disse...

Dá um bocado a sensação que o teu irmão e o amigo fizeram um disparate e foram contar-te mesmo para ouvirem um ralhete.
Sempre era melhor do que ouvir dos pais...
Bjs da prima

gajo disse...

bela historia ... :)
conheço uns quantos casos, muitos deles agradavelmente bem sucedidos...

Oumun disse...

ehhehehe eu ás vezes também faço isso e depois arrependo-me porque fico com receio que ele nunca mais me conte nada ;)
Não tenho nada contra chat's nem conhecer pessoas tem de se tomar uns certos cuidados mas não tenho nenhum preconceito em relação a isso, já conheci algumas pessoas assim , hoje por exemplo conheci uma pessoa dos blog's e pois tá claro que adorei conhecer :)
Agora digo a verdade acho que não ia conhecer ninguem a outro pais isso já requer muita coragem :)
beijocas

mel disse...

Mais um sorriso, Margarida!
E eu até tenho uma história para contar!
Como contei no meu blog, no Sábado fui jantar com uns amigos do Chocolatinho. Como são todos ingleses, ou apenas falam inglês, eu compreendi que um deles, o S., precisava que nós ficassemos na mesma mesa que ele e a esposa, pois ela é brasileira, de Rio Grande do Sul e só fala português.
Em Abril fomos ao casamento, com um convite feito por telefone, com 2 semanas de antecedência. Problemas com o visto.
Eu achei aquilo um bocado estranho.
No Sábado ficou explicado. Ela tem 39 anos, e ele 40. Ela deixou a casa dela e veio casar com ele, depois de ter cá vindo 2 vezes. Conheceram-se pelo Yahoo Messenger! Porque ele é enólogo e ela interessa-se por vinhos.
Ela diz que aqui é o paraíso. E diz também que ensinou a mãe de 74 anos a conversar com ela no messenger porque gastavam muito dinheiro em telefone. Contou-me que nunca pensou que, com esta idade, e depois de ter comprado terreno e contruído a sua casa, deixasse o Brasil atrás de alguém que conheceu online. Custou-lhe deixar a mãe mas esta disse-lhe que quando tinha chegado o momento de procurar a sua felicidade também não ficou com os pais.
Já sabemos que seremos convidados para o casamento no Brasil em novembro.
Acho esta história admirável. O que é certo é que nunca vi o amigo do Chocolatinho tão feliz.
Acho que estas relações têm tanta hipótese de resultar como outra qualquer... deixa os miúdos divertirem-se, amiga!
Beijocas

P.S. Desculpa roubar tanto tempo de antena, tá? 'Brigada!

Xuinha Foguetão disse...

Acho que fizeste muito bem!
Foi uma boa solução! E parece-me que ela não se importou nada! :)
Casamenteira!!!
Hi hi hi hi!
Nunca se sabe onde uma história começa...
Beijos grandes!

Margarida Atheling disse...

Pois é!
Eu deixo! Aliás, não tenho nada que deixar ou não. Não é comigo!
Fiquei um bocado apreensiva com a situação em si. Nem foi pela forma como se conheceram.

Mas... se querem saber, ela telefonou-me ontem, feliz da vida, porque ele vai lá visitá-la.
Ele telefonou-me pouco depois para me "tranquilizar". E contar que vai lá ter com ela.
Que tenham muita sorte! E não passem outra noite dentro de um carro, até porque lá é um bocadinho mais frio!

Rita disse...

Pois... em 2000 tb parti para o Brasil para ir ter com o R.!!! Vim de lá 15 dias depois com ele e para casar 1 mês e meio depois! (gargalhadas)
Isto comigo é ou vai ou racha!

Sara MM disse...

Acho que a grande diferença é que com Blogs acabamos por conecer as pessoas com quem falamos, e com chats isso pode nunca acontecer.... mas como nunca usei o chat e sou quase sempre a mais nova, nao faria papel de irmã mais velha ;o)