- Vi ontem um filme que tinha tudo a ver contigo. Até fiquei arrepiada!Foi o que uma amiga me disse, a meio da manhã, ao telefone.
Uma vez disseram-me isso a respeito de um livro. E era verdade. Tirando algumas coisas, quem me conhece bem, encontrava-me numa personagem desse livro, por acaso, com o mesmo nome.
Em relação ao filme há uma parte de verdade, sim. Apenas uma parte; a mais comum, a menos sedutora.
Por acaso vi o filme ontem à noite, e por acaso, gostei muito dele.
Haverá filmes mais bem feitos, mais conseguidos, com melhor enredo... em suma, melhores. Haverá até filmes de que possa gostar mais mas, de facto, neste revi-me um bocadinho.
Sem qualquer pretensão de ser, nem de leve, comparada com a beleza celestial da Gwyneth Paltrow; e sem ter a ilusão de viver um romance de livros de contos, como acaba por ser o dela, identifiquei-me com tudo o resto. E, tudo o resto é, para quem o vive, muita coisa.
Foi bom perceber que não sou um bicho raro.
Que há vidas iguais à minha; pessoas que viram do avesso arquivos, fazem quilómetros e quilómetros, perdem noites de sono, se entusiasmam com um indício - um simples indício - deixado por alguém que, tendo morrido há muito tempo, tentamos trazer de novo à luz do dia.
É normal, pelos vistos. Não me acontece só a mim!
Também são normais as guerrinhas no meio académico, as traições, as rasteiras, a ambição cega... essas coisas que, apesar de toda a paixão pela investigação, me deixaram sem vontade de me deixar enredar por inteiro nessa realidade.
É normal; não sou só eu que as vejo.
Também é normal acabarmos por nos envolvermos com alguém com quem temos cumplicidades académicas, com quem dividimos trabalho, interesses, conhecidos, livros, informações, programas de congressos... por alguém que faz parte desse grupinho fechado.
Também é normal, concluirmos, um dia, que isso se esgotou e que nunca foi bem a mesma coisa para os dois. Olharmos para trás e concluir que demos demais, que essa pessoa até nem é sequer uma boa pessoa. Concluir só; sem sobressaltos.
Assim como é normal tornarmo-nos assim, receosas e com um toque leve de incredulidade, em questãos amorosas a partir daí. Normal que nos defendamos. Até quando defendermo-nos significa evitá-las a partir do momento exacto em que deixam de ser apenas sonhadas, desejadas e se tornam, simplesmente, possíveis (sim prima, tens toda a razão! O longe é a minha defesa preferida: longe no espaço e longe nas possibilidades).
E até é normal ter uma ligação assim, quase telepática, com uma trisavó, descobrir os seus muitos segredos e histórias e quase viver um bocadinho a vida dela.
Afinal... até sou normal!