terça-feira, 14 de junho de 2005

...

Ponto 1:
Estou a tornar-me cada vez mais convicta de que devemos fazer um esforço por não nos tornámos insubsituíveis no trabalho.
É bom que haja alguém, ou até mais do que uma pessoa, capazes de ocupar o nosso lugar em caso de ausência.
Quer-me parecer que tenho andado a ser muito palerma todo este ano. Nos outros também, mas neste muitíssimo mais!
Se quando não estou por umas horas o telemóvel não pára de tocar, então como será quando estiver de férias?!

Ponto 2:
Estou triste. Realmente triste.
Não é melancólica, nem nostálgica, nem irritada. Triste!
E não é por nenhum fantasma do passado. Não é por nenhum fantasma. Não é por nada do passado. E, imagine-se, nem tem nada a ver com o trabalho.
Mas que estou triste, estou! Daquelas tristezas mansas, que não dá para afastar com uns gritos na cara de alguém ou contra alguma coisa. Daquelas que nascem de mansinho, silênciosas, no coração. Mas até sei porque é.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Não há coincidências

É o título de um livro que me ofereceram hoje, de surpresa, porque disse que nunca tinha lido literatura light. Mas não se trata disso.
Não há coincidências...

Até há muitas. Coincidências, encontros, acasos e coisas que tais. Algumas deixam-nos arrepiados só de pensar que podiam não ter acontecido.
Mas há os outros. Os encontros que não são fruto de coincidências. Que são preparados e surpreendem só uma das partes. E foi o que me aconteceu no Sábado à tarde.

Estava num sítio previsível, a fazer uma coisa previsível, com as pessoas previsíveis, às horas previsíveis. Com o conhecimento de várias pessoas. Algumas delas minhas amigas de há muitos anos. Mas amigas também de mais alguém.

Um dia qualquer na nossa vida, algures na adolescência, todos descobrimos sentimentos novos. Um dia qualquer o coração bate mais depressa e o toque de alguém que era um amigo de colégio faz-nos tremer.
Um dia qualquer também, tudo isso passa. Esfuma-se. Consome-se.
E fica a lembrança, embelezada pela distância física e pelo tempo. Uma memória longínqua, doce, calma.
Não se espera retomar nada. Já não se sente nada por essa pessoa. Mas tem-se saudades desse tempo e desse sentimento, que ficou tão longe.
No entanto, ficamos a pensar se não podiamos ter criado um último capítulo a esta estória.

Não o via há anos. Não sabia onde estava a viver, o que estava a fazer, se estava sózinho, se tinha namorada, se tinha casado. E preferia não saber. Simplesmente porque não tinha que saber.
Sim, o coração disparou quando o vi à minha frente. Mas não foi por ele. Foi pelo tempo que tinha passado, pela inocência daquilo tudo que nunca tinha passado de muitas inquietações, algumas insónias, sonhos, mãos transpiradas e meia dúzia de beijos desajeitados.

Não havia nada a fazer nem a dizer.
Custou-me muito tê-lo à minha frente durante o jantar, mesmo havendo muito mais gente à mesa.
Tinha curiosidade em espreitar para dentro daqueles olhos azuis. Mas não queria que ele visse para além dos meus olhos. Tinham passado a ser território que lhe foi vedado.
A mãe já não tem o Porsche, a irmã do meio já casou e tem dois filhos, a pequenina já não é pequenina e é bióloga. Ele mora longe, sózinho, trabalha no que sempre gostou e ganha bem.

Continuas a morder o lábio! Estás incomodada?

Pois continuo. Parece que não mudei tanto assim.
Mas tudo o resto mudou. E há mesmo um tempo para tudo, coisas que devem ficar onde foram deixadas. E não se deve olhar para trás! Até porque me apetece muito mais olhar para a frente...

domingo, 12 de junho de 2005

Se calhar...

Se calhar já sei. Devo estar só um bocadinho contrariada por me deixar prender por compromissos que não me apeteciam.

Gosto muito de cavalos. Adoro a minha égua.
Mas não sou dada a grandes acontecimentos equestres que se transformam, na maioria das vezes, em feiras de vaidades. Com pessoas que nem gostam dos animais mas que os têm para os exibir.
Não suporto vaidades bacocas e galanteios enjoativos.
Não sei porquê que aceitei isto este ano. E o outro, e o outro antes.

Mas o que sei é que, porque tinha combinado isto, fiquei com o fim-de-semana estragado. E tive que ficar por cá. E até me apetecia ter aceite o outro convite. E sinto-me arreliada comigo por ter cedido.
Se fosse o meu irmão, à velocidade a que ele guia, ainda estava muito a tempo de fazer um bocadinho mais do que 300 quilometros e ir jantar a Barcelos. E a verdade é que é mesmo o que me apetece. Desde que estivesse cá amanhã à hora de almoço...

Hesitante...

É assim mesmo que me sinto.
Hesitante! Mas não sei sequer em relação a quê!
E gostava muito de saber!!!

quinta-feira, 9 de junho de 2005

Deus

Tenho uma conversa adiada com Deus desde as calendas gregas!
A minha cara Oumum marcou-me esta conversa, faz tempo. Mas eu tenho andado sem grande vontade de falar com Deus.
Tenho preferido dizer as coisas que me passam pela cabeça, ou até pelo coração, de uma forma imediata. Sem serem pensadas, sem me preocupar com a pertinência ou o sentido delas.

Mas hoje, que estou com um bocadinho mais de tempo porque não vou passar pelo meu outro trabalho, achei que era uma boa altura para a tal conversa.

Imagina que Deus marcou um encontro contigo num determinado restaurante perto da tua casa. Imagina-te sentado/a ao Seu lado, a dialogar com Ele. E agora pergunto eu:

1. Qual era a ementa que Lhe sugerias e porquê?
Nada em especial. Talvez uma espetada de lulas, simplesmente porque, com este calor, é das poucas coisas que consigo comer, com vinho verde daquele que trago de Valença (verde branco), muito fresquinho, e sorvette de morangos, dos meus, para a sobremesa. Mas aposto que a Ele o calor não incomoda nada!

2. Que motivo teria Deus para falar contigo?
Não faço ideia. Provávelmente porque até é um momento em que não seria eu a dar o primeiro passa para falar com Ele. Nem sei porquê... Se calhar, por isso mesmo, precisava que Ele viesse almoçar comigo.

3. Fazia-te perguntas acerca da Igreja. Que Lhe contavas?
Contava-lhe que a Igreja me parece muito distante daquilo que acredito que era a Sua vontade.
Que está cheia de pessoas que lá se instalaram e agem como se fossem suas donas e donas da verdade. Que algumas dessas pessoas até têm condutas muito reprováveis, mas que ocupam o tempo a apontar o dedo aos outros. Que algumas delas nem são membros do clero.
Dizia-Lhe que vou muito pouco à Igreja por isso mesmo.
E que não concebo que sejam pecados algumas das coisas que me dizem que são.
Mas que, apesar de tudo, acredito na boa vontade de algumas outras pessoas.

4. Dava-te a possibilidade de concretizar um desejo. Que pedias?
That´s a very private subject...

5. No final da refeição pedia-te uma recordação. Que Lhe oferecias?
Receio que nada de original. Um álbum de fotografias com as pessoas de quem gosto e de alguns lugares lindos, criados por Ele. Daqueles que me alimentam a alma. Para que Ele se lembrasse sempre deles, e os protegesse. Mais do que a mim!
O único problema é que tinha que Lhe pedir para esperar um bocadinho, porque tinha que ir a correr pedir fotografias a algumas pessoas!

6. Por fim oferecias-Lhe um café. Com ou sem açúcar? Porquê?
Com açucar. Porque o café, quando bebo, bebo com açúcar (mas não o pacote todo). É que Ele, de certeza, também pode. Não deve ter problemas com diabetes ou dietas!

7. Quem pagava a conta?
Eu! Com o maior dos prazeres! Embora essas coisas não Lhe interessem nada!

8.Quem vais sugerir (3 pessoas) para almoçar com Ele? E porquê?
Ninguém. Ele sabe muito bem que nunca passo correntes. Mas como, confesso, este "almoço" até me soube bem, acho que deve ir almoçar com Ele quem assim o entender, porque Ele deve conseguir almoçar com toda a gente!

Lição

Quando era pequena ensinaram-me a afastar-me das correntes de ar. Diziam que eram perigosas.
À noite tiravam-me as flores do quarto porque libertavam dióxido de carbono e podiam intoxicar-me.
Ritual de Mãe, ou Pai, à noite: ir ao quarto da menina Margarida - e ao do mano - tirar as flores (que voltavam sempre na manhã seguinte) e assegurar-se de que as janelas estavam fechadas.

Mas a menina cresceu.
Não tira as flores do quarto. Que preciosismo! Isso pode lá ser perigoso!
E não se importa com as correntes de ar. Muito menos em noites quentes!

E ontem estava quente. Demasiado.
Deitei-me mas acordei às três horas com calor. Levantei-me fui à cozinha e comi mais cereijas. Mas estava mesmo calor.
Solução: um duche quase frio; umas pragas contra o inventor dos pijamas e camisas de dormir, que em noites como estas servem para aquecer ainda mais; as duas janelas completamente abertas e ir dormir assim com o cabelo molhado, usando como cobertura os lençóis, porque chega muito bem.

Dormi lindamente! O resto da noite!
O contacto dos lençóis parecia-me tão agradável, a sensação do cabelo molhado na pele tão refrescante, a brisa que corria mesmo por cima da cama tão envolvente, o cantar dos grilos tão tranquilizante...
Mas hoje acordei com o nariz completamente entupido e a garganta a doer. Em vésperas de fim-de-semana alargado!!!
Ora a lição é: os pais têm, muitas vezes, razão! Ou algumas...
Quando tiver filhos vou tirar as flores à noite e assegurar-me que as janelas do quarto ficam fechadas!

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Sempre o amor!!!

Uma amiga minha dizia-me ontem, angústiada, ao telefone, que o namorado, que está a viver a umas centenas de quilómetros, lhe tinha dito que tinham que resolver essa questão da distância.
Ela respondeu com uma citação da Marguerite Duras que dizia qualquer coisa do tipo: o amor vive-se mesmo quando só existem palavras.
E se não era isto, textualmente, era quase isto.

Ele acha que a situação não é confortável e que deviam resolvê-la.
Ela acha que têm tempo.

Ele acha que a citação não correspende a uma verdade. Ela diz que sim.
E é verdade. É verdade para nós, mulheres.
É possível. Conseguimos alimentar um sentimento assim, imaterial.
Se calhar até precisamos de fazê-lo um bocadinho para perceber se é verdadeiro.
Mas depois disso... há outros momentos. Espero que ela o entenda!
Sempre o amor a atormentar as pessoas!

terça-feira, 7 de junho de 2005

Só

Cheguei a casa quase às nove.
A primeira coisa que fiz foi ver a minha égua. Com o dia de calor que esteve...
Já dentro de casa, fui à cozinha, tirei o meu jantar e pus tudo num tabuleiro. Agarrei no tabuleiro e fui para a rua.

- Mas onde é que vais?! Vais para a rua?!

- Vou! Vou jantar lá para fora.

- Sózinha?! Pássa-se alguma coisa?!

Não. Não se passava nada.
Uma vida inteira e ainda não é perceptível que gosto de uma refeição sózinha. Pelo menos de vez em quando - ou frequentemente.
O meu Avô entendia-me. Também gostava destas coisas. Mandou fazer uma mesa para pôr na alameda, era eu uma pirralha, para me satisfazer estes gostos. Mas já não existe essa mesa, e já não tenho a companhia do meu Avô.

O jardim não era boa opção. Não era isso que me apetecia.
Desci as escadas que dão para as laranjeiras, pensei sentar-me lá, mas também não era suficientemente desafogado.
Eram nove e quinze quando me sentei no socalco de pedra que separa as laranjeiras da cerca da égua.

O Sol já se tinha posto e o céu estava de um cor-de-rosa quase vermelho.
Finalmente espaço! E calma!
E o dia a começar a escurecer, e uma águia atrasada a baixar de altitude e a pousar num carvalho da mata, ali perto. Não sabia que ela passava lá a noite. E uma brisa. E o cheiro das tileiras em flôr.
E tempo... para mim. E não ter que manter conversas de circunstância.
Ás vezes gosto de estar assim sózinha: de viajar sózinha, de comer sózinha...Ás vezes!
Sou adepta incondicional do mais vale só do que mal acompanhada. E há momentos em que até sou adepta do mais vale só do que acompanhada. Mas claro que é só às vezes! Porque há ocasiões em que até me esqueço de mim...

segunda-feira, 6 de junho de 2005

A menina

A menina tem os ombros estreitos e é tão clarinha... A menina tem ar de menina do Norte!

Não percebi se era um elogio, uma crítica ou uma constatação. Não me interessou. Irritou-me só um bocadinho o uso repetido do menina em tão poucas palavras.

Também não sei se há um ar do Norte ou do Sul. Não sei se há assim marcas nas pessoas.
Na verdade sei. Sei que as pessoas são diferentes. O que não sei é se há o tal ar.

Estas coisas são muito simples. Existem os genes e os genes marcam. Ora os genes são herdados, e não se importam com o sítio onde nascemos.
Ora é verdade, a menina não é cá de baixo, nesse sentido.
É do Norte sim. Mais do Norte da Europa e mais do Norte de Portugal.

Sete gerações cá por baixo não contam nada.
Toda a gente vinha para a Corte, mas Lisboa - que é uma cidade linda! - não marca ninguém. Vive cá toda a gente!
Tenho ascendentes de Lisboa, mas isso não marca. Os outros, a maioria, são realmente do Norte (os que não são de outros países). São de Barcelos, e de Braga, de Caminha, da Póvoa, da Trofa...
Ora, suponho que sim, que a menina é do Norte.

A menina continua a ter primos em décimo grau, e mais afastados, lá por cima. Continuamos a visitar-nos como se fossemos primos direitos. E os primos, dos primos.
A menina continua a fugir lá para cima, quando pode. E a ter cada vez mais vontade de não regressar cá abaixo.
A menina dá-se melhor com o clima e as pessoas lá de cima. Bem mais directas, mais alegres, muito mais familiares...
A menina só tem sentido de orientação lá. Cá por baixo até perde o lugar onde o carro está estacionado!
A menina apanha a pronúncia do Norte num abrir e fechar de olhos. E sabe-lhe bem falar assim porque lhe sôa mais doce.
A menina retarda a vinda para baixo o mais que pode. Sempre! Até ao último dia, à última hora, ao último minuto. Com culpa também de quem me acolhe por lá, é verdade. Insistem para que fique, de vez! E algum dia fico!
Ora a menina é do Norte, sim senhor! O B.I., afinal, não conta nada!
E agora, a menina, vai mas é trabalhar que tem uma quantidade de coisas acumuladas, mesmo aqui, à minha beira!

sábado, 4 de junho de 2005

Um segredo

Acordei um bocadinho mais tarde do que o costume. Aliás, não acordei, fui acordada pela minha Maria que hoje cá está para lavar as paredes da cozinha.
Acordou-me devagarinho, como quando eu era pequenina. Como se nem me quisesse acordar. Mas perguntou-me, baixinho, se não tinha que ir trabalhar hoje. E tenho!
Eu sabia que ia pagar a factura daquela fuga da semana passada. Mas tenho suportado estóicamente. Só hoje começou a custar realmente.

Dormi mal.
Até dormi muito, porque se não tivesse dormido não tinha sonhado toda a noite. E sonhos estranhos.
Não eram pesadelos, mas eram esquisitos e desgastantes. Daqueles de que se acorda quase com falta de ar e cansada de tentar perceber que pessoas eram aquelas e o que é que ali estavam a fazer, e que sítios e situações eram aquelas.
Acho que é por isso que me sinto cansada e que tive tanta dificuldade em acordar.

Levantei-me ensonada e agarrei na escova do cabelo que tinha deixado em cima da secretária do quarto. Lá em cima está também uma caixa. Tem lá dentro apanas três fotografias. Há anos.
Três fotografias do meu sítio preferido. Abri-a, tirei uma e fiquei a olhar para ela.
Não há imagens que façam justiça àquele sítio!

Longe de povoações e de estradas. Sem sinais da civilização. No meio do nada. eu própria terei alguma dificuldade em encontrar o pequeno caminho que lhe dá acesso.
Não se vê, de lá, sinais do Homem. Só aquelas pedras velhas, com musgos. Mesmo lá dentro não há nada, mas era capaz de jurar que se ouvem os cânticos dos monges que deixaram aquele sítio há tantos séculos.
Cá fora, espera-se encontrar, ocupados nas suas vidas, fadas e faunos, princesas e principes, unicórnios e dragões.
E sentimo-nos invisíveis, como se tivessemos caído, inadvertidamente, numa história de encantar.

E aquele lugar é mágico! Seja lá o que for que a palavra signifique.
Tem uma força estranha que enfeitiça. De longe, há tempo...
Já era considerado mágico antes do cristianismo, continua a sê-lo depois de ter ficado sózinho.
De lá, sai-se a custo, com os olhos cheios de água, só porque alguma coisa nos prende.

Aqueceu-me a alma lembrar-me que este sítio está lá. Que posso lá voltar.
Sinto-o meu! Um tesouro que se guarda. Porque os tesouros não se exibem...
Reparei, admirada, que apesar de ser tão importante para mim, nunca levei lá ninguém. Não levei aquela pessoa que, durante algum tempo, julguei ser muito importante na minha vida. E sei que ele teria gostado.
Não lhe falei sequer neste sítio. Ainda bem!

Um dia levarei alguém. Daqui a pouco ou a muito tempo. Quem sabe?
Mas lá, levarei apenas uma pessoa. Ou nenhuma.
A única certeza que tenho é que, se levar, será a pessoa certa.
Por enquanto é só meu! E vou trabalhar com este sorrizinho idiota de quem guarda um segredo!

... Posted by Hello

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Manias

Sou completamente desorganizada. Desorganizada por natureza.
E de tão desorganizada que sou tive que fazer um esforço para me organizar, e tornei-me, aparentemente, organizada.
Passei a ser organizada para poder poupar tempo para ser desorganizada.

Há anos que uso filofax. Primeiro um de couro castanho que durou anos. Depois fartei-me e comprei um, numas férias, cheio de pintainhos. Era o máximo exibir tão curioso padrão em frente de pessoas importantes.
Este ano cansei-me dos pintainhos e comprei uma agenda (que, reconheço agora, devia ser maior). E tenho que escrever todos os compromissos, muitas vezes de forma abreviada, se são de trabalho, ( esses estão todinhos, bem explicados na agenda do escritório), sob pena de não fazer nada do que era suposto fazer quando era suposto.

O meu quarto e o escritório, esses têm que estar muito arrumados, não por ser organizada, mas sim porque se não tiverem assim perco-me.
Tenho todas as datas e todos os números relacionados com o trabalho cuidadosamente sob controle, mas quanto ao resto... em relação às minhas coisas pessoais...

Se viajo não faço listas do que é suposto levar, como as minhas amigas.
O necessário é saber para onde vamos e por quanto tempo. Depois atiro tudo o que me lembro para cima da cama (cerca de uma hora antes de sair!!! Mesmo que o "sair" seja para o aeroporto!), escolho uma mala e selecciono o que é possível arrumar lá dentro. E nunca veio mal ao mundo por isso. O pior que me aconteceu foi ter que comprar umas roupitas mais quentes no local de destino.

Nunca controlo as minhas contas bancárias (que também não são muito avultadas), mas tenho o instinto suficiente para não gastar para além do recomendável.
A única coisa que guardo desde sempre são os talões dos cartões de crédito. Desde sempre, quando um idiota me dizia: Tu tens lá idade para usar cartões de crédito! Mas, já agora, empresta aí...

Guardo todos na carteira. Quando chega o extracto confiro tudo. Depois deito fora alguns e guardo outros, porque me lembram alguns momentos bons.
É verdade que há alturas em que não tenho razão nenhuma para guardar nenhum, mas durante uns oito anos - que é o tempo há que tenho cartão de crédito - sempre se vai acumulando uns quantos.

O resultado é que a carteira vai ficando cada vez mais cheia o que me leva a comprar uma maior. Agora decidi que não compro nenhuma maior.
Ou vou ter que rever as recordações que, realmente, quero continuar a guardar, ou vou ter que os arrumar noutro sítio. Mas, se calhar, é melhor aproveitar a fase de arrumação e deitar [quase] tudo fora!

quinta-feira, 2 de junho de 2005

Infância

Li esta noite, em casa do meu primo V., num guia de praias, o seguinte texto acerca da minha:

A praia é frequentada essencialmente por praticantes de surfe, mas também por algumas famílias. O mar costuma ser instável. E não é recomendável a crianças: tem muitos fundões traiçoeiros e correntes fortes.

Não é recomendável a crianças?! Então e essas tais famílias não têm crianças?!

Sim. Tem alguns fundões (mas não muitos) que condicinam as correntes.
Ainda que o fundo do mar mude sempre um bocadinho, nunca muda assim muito. Portanto as correntes são sempre as mesmas (para Sul e depois para dentro) quase sempre no mesmo sítio, mais ou menos com a mesma intencidade.

Pois eu, como muitas, mas muitas outras crianças passámos lá os Verões. Foi lá que crescemos de verdade.
Deu-me umas saudades...! Tantas!!!

Saudades de contar os dias para o fim das aulas para ir para lá. De fazer a minha mala de uma forma atabalhoada ainda. De reencontrar os amigos de Verão, das roupas leves, dos lanches na praia, dos livros do cinco, dos passeios de biciclete sempre sob a orientação dos mais velhos do grupo, dos banhos (muitas vezes de areia) naquelas ondas enormes, de aprendermos a conhecer o mar para nos defendermos, de ficar na praia até ao pôr do Sol e de querermos tomar banho sempre nessa altura, de corrermos de casa para o mar de cada vez que chovia, das brincadeiras, dos risos despreocupados... Umas saudades!

Quando voltávamos para casa era uma tragédia. Toda a gente chorava! Até parece que iamos ficar a viver a milhares de quilómetros!
Mas regressávamos maiores. Por dentro e por fora.
Cresciamos e ganhávamos resistência naquele mar frio e forte e, ao mesmo tempo que nos tornávamos mais autónomos, tornávamo-nos também mais responsáveis e conscientes dos perigos e das nossas obrigações e, a pouco e pouco, fomos deixando de ser protegidos para proteger os mais novos.
Era a nossa vez de levar os mais pequenos para fora de pé e de lhes deitar a mão quando se atrapalhavam com alguma onda maior, de os ensinar a defenderem-se e a conhecer os perigos.

Essas vivências não têm preço. Seria, concerteza, diferente se não tivesse vivido assim. E seria, de certeza, pior.
Portanto, é aconselhável a crianças sim! E se um dia tiver filhos hão-de experimentar esse mar com ondas, fundões e correntes, e aprender tudo o que lá se pode aprender, e é muito! Com o mar e com as pessoas!
Ai que saudades doces de ser pequenina, lá!

quarta-feira, 1 de junho de 2005

Veneza

Uma amiga minha vai a Veneza. Daqui a perto de um mês.
Pediu-me os guias e os mapas. Passou por minha casa ontem à noite, dei-lhe o que me pediu, tomamos chá, conversámos muito e eu tentei convecê-la a não ir nesta altura. Inutilmente.

Quando lá fui, fui contrariada. Mesmo muito contrariada. Resmunguei todo o caminho com os meus botões. Já tinhamos chegado ao Tronchetto e ainda continuava a resmungar. Mas porque raio é que eu havia de ir para um sítio daqueles, apinhado de turistas de máquinas fotográficas em punho, com sorriso idiota a tirar fotografias aos pombos na Praça de São Marcos.
E as gôndolas! Aquela coisa irritante para aparecer em bilhetes postais!
Mas porquê que eu tinha ido?! Ainda por cima a minha prima G. tinha lá ido no Verão e tinha odiado. Os mosquitos que se desenvolviam naquela água com o calor e a maior praga de todas: os turistas!

Chegámos num dia de chuvisco. Agarrámos nas malas e metêmo-las no vaporetto.
Lá fomos nós naquele barco que fazia as vezes de autocarro. Desembarcámos e lá carregámos as malas até ao quarto: um espaço com beliches para quatro pessoas, mas com janela para a Baía de S. Marcos.
Por esta altura já estava bem mais animada.
Não havia mosquitos, a água não era nada estagnada mas, pelo contrário, bem batida. Tanto que os barcos balançavam bastante e molhámos os pés com a água que saltava quando desembarcámos. E também não se viam os magotes de turistas.

Rápidamente nos sentimos em casa. Lárgamos os mapas. Apanhávamos os barcos ao acaso, sem procurar saber para onde iam. Aprendemos a comer nos sítios mais baratos e escondidos, que eram também, de longe, os melhores e os mais verdadeiros. Descubrimos bairros onde os turistas não vão.
Deambulámos por ruas estreitas, escuras e húmidas que, mais cedo ou mais tarde, acabavam num canal.
Descobrimos que Veneza era habitada por pessoas de verdade, com vidas de verdade, bem longe do que se vê nos panfletos turisticos.
Descobrimos que Veneza tem muitas mais ilhas, que tem o Adriático. Que é misteriosa, envolvente e genuína.

Também é verdade que apanhámos uns sustos. Que uma vez apanhámos mesmo o barco errado e que fomos parar sózinhas, de noite, à ilha que é o cemitério, que uma outra noite, de temporal, apanhámos um barco no sentido contrário e nos fomos afastando cada vez mais de Veneza, propriamente dita, que fomos parar a um lugar sinistro sem luz e com gruas abandonadas que pareciam fantásmas, que depois até seguimos por mar batido, que o barco abanava imenso, que uma das minhas amigas estava enjoada, que todas estávamos com medo de dois homens estranhíssimos, que também estavam no barco, e que não tiravam os olhos de nós, provávelmente só por não perceber o que andávamos a fazer por ali e naquelas condições.

E descobrimos, durante o tempo que lá estivemos, uma verdade incontornável. Que quem lá está uns tempos, nestas condições, não vem de lá sem se apaixonar... por Veneza! Mas pela verdadeira!

Bom mesmo � apanhar assim os barcos, ao acaso, e sentirmo-nos completamente livres. Pelo menos por um bocadinho. Posted by Hello