domingo, 15 de maio de 2005

Divagações

Ontem, depois de ter dado por terminado o dia de trabalho (sim! dia de trabalho!), precisei de falar com uma pessoa numa povoação dos arredores de Lisboa.
Um lugar que não conhecia, sede de uma freguesia. Sítio pequenino e aconchegado, com as casas arrumadas em duas encostas tão verdejantes quanto íngremes. Uma Sintra pequenina!

Dei asas a esta minha mania, que se tem manifestado últimamente, para deambular, e resolvi conhecer algumas dessas poucas ruas.
Fui andando ao acaso por ruas estreitas e curvas. Não existem passeios e as casas, na sua maioria cor-de-rosa com portadas de madeira verdes, apertam-se umas contra as outras.

Numa dessas ruas, a seguir a uma curva, deparei-me, bem à minha frente, com uma casa grande e abandonada.
Era defendida por um muro baixo, encimado por um gradeamento de ferro forjado. Tinha um pequeno portão aberto e, lá dentro, no pátio, ainda crescia uma roseira enorme que avança pelo espaço disponível de uma forma desordenada.
A porta estava aberta. As janelas dos dois andares estavam umas abertas e outras já arrancadas. Viam-se os tectos de estuque trabalhado e um painel de azuleijos azuis e irregulares dizia: "Vivenda Margarida".

Era linda!
Num instante já a via habitada por personagens do Lord Byron ou do Eça. Mulheres delicadas e leves, de cintura fina e vestidos claros. Apaixonadas por homens gentis e sensíveis.
Já ouvia o barulho das caudas dos vestidos e os risos dos apaixonados.
Tudo isto numa fracção de segundos, sem que tivesse sequer parado.

Entretanto, aproxima-se um carro branco conduzido por um jovem homem, português típico que, provavemente por não me conhecer dali, ou porque acha que é sua obrigação de homem, ao passar profere um gracioso piropo.
E lá acordei desse sonho tão breve e desci à terra.
Mas também... onde é que eu ando com a cabeça?

sábado, 14 de maio de 2005

Em mudanças

Não tive uma adolescência problemática. Cresci, simplesmente.
Não houve dramas nem crises. Só ajustamentos e descobertas.
Não foi fácil, porque nunca é. Mas não foi difícil. Longe disso!

Não dei reviravoltas. Não tive que me redescobrir.
Não mudei de estilo, nem de amigos, nem de gostos. Cresci.

Agora, já crescida, e depois de algumas coisas - de uma coisa - que não devia ter acontecido, respiro fundo e estranho-me.
Definitivamente, mudei, ou estou a mudar.
Ou, se calhar, esqueci-me de mim por uns tempos, e já não me lembrava.
Ou as duas coisas.

Dou por mim a olhar para as minha mãos como se não fossem minhas, ou para as pontas dos cabelos como se nunca os tivesse visto. E, no entanto, não é uma sensação má.

Mas estranho também os sentimentos e as sensações.
Olho para as nuvens de trovoada, grandes e brancas, como se nunca as tivesse visto, para o Sol, para as flores e as árvores.
A sensação de liberdade de um galope a rédeas soltas ou uns mergulhos num mar bravo.
Estranho sentimentos como se nunca tivesse sentido nada antes e, apesar disso, lembro-me de tanta coisa.

Não mudei no essêncial. Tenho os mesmos valores e os mesmos gostos. Conservo alguns amigos, mas desenvolvi afectos por outras pessoas.
Reajo de maneira diferente a várias coisas e, sobretudo, sinto de uma forma diferente.

Não foi hoje, nem ontem. Deve estar a acontecer desde os últimos meses, ou do último ano, ou um pouco mais. Mas foi um processo lento e progressivo. Uma coisa que foi crescendo, que só agora se sente. Tanto que não dá para ignorar. Como se fosse um acordar muito, muito lento.

Não estou com tempo para reflexões. Ou talvez nem queira fazê-las!
Está a agradar-me esta sensação de que tudo é novo. Até coisas tão simples como a sensação do vento na pele. Acho que vou deixar estar. Fechar os olhos e deixar-me levar.

Duarte

O meu priminho Duarte faz hoje anos, e eu não podia deixar passar a data em branco. Porque acho que o primeiro aniversário é uma data muito importante, quase uma passagem, em que os bebés começam a deixar de ser bebés (o que é uma pena!) ... e porque é meu primo, e pronto!
Muitos parabéns bebé!

quinta-feira, 12 de maio de 2005

A pedido da prima

A minha querida prima passou-me mais um dos inquéritos que parecem estar a aparecer como cogumelos por aí.
E como não se recusa um convite de uma boa prima, e o inquérito até tem piada, aqui vão as respostas:

* Que fazes neste momento?
Não sei quem inventou tal pergunta, mas é um bocadinho estranha. Então não se nota que estou a responder a este inquérito?!

*Que planos tens para o fim-de-semana?
Por acaso este fim-de-semana, porque aceitei o tal trabalho extra, tenho que trabalhar no Sábado.
No Domingo faço questão de não ter planos. É disso que gosto nos fins-de-semana: a ausência de coisas pré-estabelecidas. A menos que seja uma coisa que me interesse muito.
Mas vou acabar por me ocupar com uma das duas coisas que me limpam a alma: o mar ou os cavalos.

*Que coisas te causam stress neste momento?
Aquele tal trabalho, que me vai obrigar a estar amanhã fechada toda a tarde numa reunião, e me vai tirar liberdade.

* Que fizeste desde o acordar até agora?
Ai! Devia responder a esta pergunta ao levantar!
Hoje foi um dia muito fora do normal.
Levantei-me e fiz aquilo que qualquer pessoa faz: banho, vestir, pequeno-almoço.
Convenci-me que precisava muito do meu computador portátil, que tinha deixado na praia, para amanhã, e fui buscá-lo. Não resisti e tomei o meu primeiro banho de mar do ano. Estava com ondas estranhas, a corrente do costume, e fria.
Almocei num restaurante junto à areia (que não vou dizer qual é) e voltei para cá.
Vi os comentários do meu blog e visitei de passagem alguns outros (poucos).
Apesar de não ter nada a ver com as vendas, atendi um homem que queria, porque queria, compras umas coisas, independemente do preço e sem ter provado. Dizia que sabia o que estava a ver ??!! Eu disse quanto era e ele pagou. A pronto!
Fui ver a vinha, recém-plantada, de Cabernet, que está a crescer a olhos vistos.
Atendi o veterinário que veio ver a égua.
Comecei a conferir os movimentos das contas bancárias, coisa que tenho que acabar hoje, e que implica um bem longo serão.
E agora resolvi respender ao questionário, antes de jantar.

*A quem irás passar este teste magnifico?
A ninguém.
Nunca participei em correntes. Nem sequer abria aquelas cartas que percebia que eram cartas-corrente.
Por mais que entenda que é, na maioria das vezes, uma prova de amizade transmiti-las às pessoas por quem temos estima, prefiro, por uma questão de coerência, não a passar a ninguém. Isto apesar de até ter passado aquele outro inquérito sobre os livros, isso sim, uma incoerência!
Mas como até é engraçado, sugiro que responda quem gostar de o fazer!

quarta-feira, 11 de maio de 2005

O sapo

Era uma noite de Fevereiro. Húmida e fria.
Não me lembro das horas.
Não sei a que horas jantámos. Nem deviamos ter jantado. Depois do que se tinha passado naquele dia. Mas, por isso mesmo, não queriamos encarar ninguém. Nisso estávamos de acordo.
Saímos de carro. Ele tinha um compromisso. Passou-me a mão pelos cabelos, pela cara... Pensou adiá-lo. Lembrei-lhe que tinha que ir. Esperei no carro. Foi rápido. Voltou a sorrir! Mas eu evitava encará-lo nos olhos! Não queria ver!

Não tinhamos fome. Não sabiamos para onde queriamos ir, nem se queriamos. Tinhamos pressa, mas sem sentido.
Acabámos por comer qualquer coisa num McDonald´s. Foi a primeira e última vez que jantei num sítio desses em Portugal.
Ele falava, e eu não olhava para ele. Nem sei o que disse.
Lembro-me vagamente de falarmos num documento preciosíssimo que eu tinha descoberto nesse dia. Era só ele que estava empolgado.
Aquilo era uma despedida!

Lembro-me da viagem na auto-estrada.
Da chuva miúdinha. De ter tentado dormir e não conseguir. De ouvir a voz dele em conversas sem sentido. De sentir a mão dele e de me assustar com a condução.

Lembro-me de seguir por estradas familiares. Do escuro.
Havia um sapo na caminho... Ele parou o carro. Disse-me que adorava sapos. Como é que eu não sabia?! Como é que ainda havia coisas que eu não sabia acerca dele?!
O sapo não saía da estrada. Saí do carro para o obrigar a atravessar.
Aquele sapo... e a chuva miúdinha e persistente.

Mais tarde, lembro-me do calor. De ter reparado, ao fim de tanto tempo, como a minha pele era mais clara do que a dele, de ouvir, ao longe, as badaladas do relógio da torre, das mãos dadas, da luz da lua a entrar pela janela porque a chuva tinha parado, de descançar a cabeça no peito dele. Mas aquilo era uma despedida!
Não era mais uma. Era a despedida!

Lembro-me de ele ter dito baixinho: Vou-me embora. Ou para um país menos desenvolvido, para ensinar, ou para um mais evoluído para aprender mais.
Nem ripostei. Estava habituada a partidas. A ter o mar pelo meio.
Mas, desta vez, não era uma viagem que nos ia separar. Aquilo era, realmente, uma despedida!

Não foi o fim. O destino encarregou-se de tranformá-lo num outro início de uma outra coisa que teve um fim. Definitivo.
Onze meses depois partiu. Podia ter ido antes. Quem o prendeu partiu também, ele sim, para sempre. Para um sítio de onde não se volta.
Não imagino quantas pessoas terão também descansado a cabeça no peito dele depois disto. Nem sei quem o fará agora. Nem me importa.
É o sapo! É a imagem do sapo que não me sai da cabeça!
Foi o sapo que me sem deixou dormir na noite passada! Foi o sapo...
E eu até gosto de sapos, mas...

Há dias...

Há dias em que se perdeu a noite.
Em que foi difícil adormecer. Em que se teve sonhos estranhos. Em que se acordou a meio da noite com o som da chuva a cair, se saiu à rua para a ver e não se conseguio dormir mais. Em que se ficou a pensar se naquele país afinal estará a chover também, e estará mais frio do que aqui.
Há dias em que algumas recordações saltam do passado, sem autorização, e se agarram a nós, por mais que tentemos soltar-nos. Há dias em que temos raiva de um futuro hipotético, vago, talvez até mais do que improvável, e cuja imagem, mesmo assim, nos assalta entre o apetecível e o inquietante.
Há dias em que o sorriso teima em esconder-se como o Sol.
Há dias em que nos apetece fugir de nós mesmos. Como naquele dia, depois de mais uma discussão, desta vez, em público. Mas hoje não vou ouvir sussurrado : Eu sei. Compreendo!
Ainda bem que hoje nem tenho tempo para pensar!
Este sim, é um post hermético. Hoje é!

terça-feira, 10 de maio de 2005

Humm...!

Já percebi que o meu blog é uma criatura de personalidade.
Eu prometo e ele cumpre!
Parece que partiu em viagem, para parte incerta, e deixou um espaço, simplesmente, em branco.
Imagino que volte! Mais tempo, menos tempo...
Entretanto o que me compensa é que choveu! E este cheirinho assim a terra e feno molhado, logo pela manhã...

A cenoura

Sempre gostei de me sentir com horizontes largos. Mas nos últimos tempos a minha necessidade de sair - de sair do país, entenda-se - tem-se tornado muito evidente.
Aqui não a escondo, porque não fazia sentido. Mas evito apregoá-la fora daqui.
Mesmo assim, suponho que se nota porque, numa viagem de carro, perguntaram-me assim, saído do nada: E se fosses uns dias à Escócia?

O problema está aí! Não posso!
Agora, e até ao fim de Novembro não vou ter mais do que dois dias seguidos livres, excepto aqueles 20 dias, mas esses são todos para passar na praia - sem mar morro!
E não posso porque aceitei um trabalho que me obriga a ficar por cá!

Quando me candidatei achei que não tinha hipóteses. Havia tanta gente que preenchia os requesitos à minha frente...
Mas aconteceu!

Não gosto do trabalho. Não é propriamente odioso, mas não gosto.
Também não morro de amores pelas pessoas com quem vou ter que trabalhar. Não são más pessoas. A esquisita sou eu!
Aceitei só pelo dinheiro! E sinto-me mal com isso.

É muito bem pago. Vou continuar a trabalhar aqui porque não deixaria este trabalho e porque dá para acumular - com esforço, mas dá! - e, feitas as contas, só com o que esse trabalho vai render, vai dar para acabar o restauro da MINHA casa sem recorrer a crédito bancário ou favores dos pais. Sim, porque isto de restaurar uma casa com 400 anos consome algum dinheiro.
Na verdade, ainda deve sobrar um bom bocado. O que me deixa numa situação confortável para... viajar sem fazer muitas contas.

E é nestas coisas que penso para conseguir encarar o que tenho pela frente a partir desta semana.
Sinto-me como um burro a correr atrás de uma cenoura.
Acenaram com o dinheiro e eu aceitei. Pior! Acabei por ficar com um trabalho que outras pessoas fariam com o maior dos prazeres!
Pela primeira vez na vida tomei uma decisão baseada no maldito dinheiro. Mas devo estar a dramatizar! Eu estou é que estou muito mal habituada! Afinal não é por dinheiro que as pessoas normais trabalham?!

segunda-feira, 9 de maio de 2005

Amor não é...

Tenho um livro na cabeceira que tem estado, literalmente, à cabeceira, porque pouco lhe tenho pegado.
É uma biografia de uma senhora. Uma senhora escocesa que viveu na Idade Média e por quem até tenho um interesse muito especial.
O livro tem poucos anos e está muito bem feito. Mas um dos pontos em que se apoia é numa biografia feita a pedido de uma das filhas dessa senhora, por um monge que a conheceu.
A páginas tantas o tal monge afirma, a respeito do relacionamento entre ela e o marido:

What she refused he refused, and what she loved, he loved for the love of her love.

Fiquei enternecida quando o li.
Li uma segunda vez. Li uma terceira, e comecei a estranhar qualquer coisa.
O amor não é bem isto! Se é que me lembro...
Não o amor entre homem e mulher.
Bom, esta afirmação tem um grande mérito. Apesar de se falar tanto da falta de cumprimento do voto de castidade dos clérigos da Idade Média, temos que concluir que este, pelo menos, parecia cumpri-lo. Porque não fazia ideia nenhuma do que é o amor.

Fiquei a pensar que se fosse comigo eu não ia gostar muito. Simplesmente porque, a ser verdade, a outra pessoa deixa de ter personalidade, deixa de existir. E depois, quem é que é capaz de amar alguém que é vazio?
E, mal por mal, até é melhor amar do que ser amado.
Na verdade ser amado é bom, mas só se for pela pessoa certa.

Do amor espara-se muito mais!
Espara-se assim coisinhas simples como ter a capacidade de nos tirar o sono e de nos fazer dormir nas nuvens, de nos dar asas e de nos prender, de nos tranquilizar e nos deixar com o coração nas mãos, apertadinho e inquieto, de nos fazer chorar de alegria pelas coisas mais simples e sorrir perante coisas dolorosas, de nos fortalecer e tornar dependentes ...
Pode ser? Será pedir muito? Se calhar é, mas enfim...
Se acontecer... que seja assim! Aconteça se tiver que acontecer! Chegue quando tiver que chegar! Dure o que durar! Mas que seja assim!

domingo, 8 de maio de 2005


Nestas árvores moram os pássaros que me acordam todos os dias ao nascer do Sol. Mesmo ao Domingo! Mas nestes dias, em que não há horários e o corpo implora para ficar mais um bocadinho no aconchego da cama, eu faço-lhe a vontade e aninho-me mais na almofada. Então os cantares da rola, do melro, da carriça, do pintassilgo, do estorninho... embalam, e os pássaros que me acordam tornam-se nos pássaros que me adormecem. Depois, quando finalmente acordo, assim tarde e descansada, como hoje, a primeira coisa que faço quando pouso os pés no chão é abrir a janela para os espreitar. E não se pode dizer que seja uma forma desagradável de começar o dia! Posted by Hello

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Danças

Esta semana, por vários motivos, tem sido um bocadinho atípica.
Bem ou mal, o resultado é que tenho tido mais tempo do que nas últimas semanas. Tenho tido tempo para respirar!
Acabei por aceitar o convite - mais desafio - de uma amiga para fazer uma coisa que não fazia há, realmente, muito tempo: ir a uma discoteca.
E lá fomos, três amigas, de há alguns anos. Sózinhas.

Fiquei um bocadinho admirada que, a meio da semana, houvesse tanta gente numa discoteca. Está bem que é uma discoteca da moda mas, mesmo assim!

Nunca fui de fazer noitadas - nunca, excepto em ocasiões pontuais e num Verão muito particular - mas sempre gostei de dançar. É normal, não é?
Pois, é normal, mas não é inconsequente.

De facto apetecia-me dançar. Dancei horas seguidas. Há um ponto em que se dança qualquer coisa!
Parei algumas - poucas - vezes. Uma vez, estava realmente com sede. Já era tarde. Um rapazinho chega ao pé de mim educadamente. Pergunta-me aos gritos que, mesmo assim, me custavam a perceber, se eu não tinha um irmão.
Eu achei normal. Respondi que sim.
Perguntou-me depois, já mais próximo do meu ouvido, se eu não morava em Alvalade. Pensei que ele estava a fazer confusão com alguém. E disse-lhe isso mesmo. Disse que, por acaso ia a Alvalade com frequência porque tenho uma amiga - uma destas duas - que mora lá, mas que eu não morava.
Só quando ele me disse quase ao ouvido: Mexes-te muito bem, sabias?, é que a pateta percebeu o que se passava!

Voltei esbaforida para o pé das minhas amigas. Entre o furioso e o incrédula!
Não, eu não danço em cima de colunas. E não, juro que não faço nada de especial!
Elas riram-se! A C. disse que já tinha reparado nele, que já há algum tempo que ele me seguia. Que estava mesmo a ver que ia acontecer uma coisa destas. Mas a tolinha não tinha dado por nada!

Depois, muito depois, mais a frio, reconheço que há qualquer coisa de sensual na dança. Qualquer dança. Da balada mais suave à batida mais frenética.
Não é mera libertação de energia; para isso existem as sessões de aeróbica, ou qualquer outro desporto.

Não é realmente isso. O que se sente é diferente. Os movimentos, quer queiramos quer não, têm qualquer coisa de sedutores. Sem intenção, mas têm.
Aquilo que se sente quando se dança é um prazer muito mais próximo do sensual do que do meramente físico ou do estético. Os balanços, a batida, o ritmo, o calor, até a sensação do cabelo a bater nas costas, na cara, no pescoço, ou a soltar-se com os movimentos. As luzes, o som tão alto que não permite ouvir mais nada, tudo se conjuga para um mesmo efeito.

Mas - caramba! - a dança não é um ritual de acasalamento!
Bem... lá haverá algumas que até são, mas não era disso que estava a falar.
Não me sinto muito confortável com esta constatação! Se calhar era mais sensato cada um dançar sózinho, no seu quarto, e sem testemunhas. Mas paciência!
Sinto algum embaraço, mas não vou deixar de dançar por isso. Vou é passar a reagir de uma forma diferente quando alguém me perguntar: Desculpa, mas não tens um irmão?

Um título qualquer

Normalmente não dou muita atenção às notícias e aos jornais. Não por não me importar com o que se passa no mundo mas pelo contrário. Por me atormentar.
Ao muito difundido se não puderes vencê-los junta-te a eles, sempre preferi o se não puderes vencê-los, ignora-os. Mas só se, comprovadamente, não for mesmo possível vencê-los, porque sou suficientemente casmurra para bater o pé até à exaustão.

É verdade que com esta mania até já tenho cometido algumas injustiças.
Bem me avisaram que não é automático que se devam defender sempre os fracos. Ser fraco não é sinónimo de ter sempre razão, nem de ser sempre vítima.
Ser fraco significa tão só que, em caso de serem atacados, têm menos capacidade para se defender. E em caso de não terem razão, menos capacidade para atingir os outros. Só isso! A razão não é património de ninguém. Mas foi uma lição que aprendi tarde.

Passou-me ao lado aquela história da mulher que foi regada de gasolina pelo amante. Paciência! É pena, mas eram adultos. Era lá entre eles.

Passou-me ao lado a história do Ivo.
Até achei que era demasiado passar uns anos na prisão por ter fumado o que não devia. Ouvi com espanto o meu irmão dizer que não assinava a petição, caso lhe passasse pelas mãos. Mas quando tive a oportunidade de assinar também não a assinei.
Afinal o menino conhecia as leis do país. Era suposto respeitá-las. Tinha consciência do que estava a fazer. Se lhe apeteceu fazer o que fez...
Agora, quando muito, vai passar uns tempinhos na prisão, o que lhe vai permitir fazer uma recolha muito mais rica para o tal documentário que estava a preparar. Espero que tenha sorte, mas espero mais ainda, que aprenda alguma coisa.

Mas o que não consigo ignorar é o que se passou com aquela menina, morta e atirada ao Douro pela avó!
Não consigo! É uma coisa em que não consigo deixar de pensar!

Eu tive uma infância de conto de fadas. É verdade que na minha, como em todas as famílias, também houve, em alguns momentos, problemas entre alguns dos membros que a compõem. Mas uma família é isso mesmo, um corpo com vários elementos que se inter ajudam e se completam. Há sempre alguém que compensa. Pelo menos na medida do possível. É por isso que as famílias têm pais, filhos, avós, irmãos, tios, primos...

Não consigo imaginar uma avó e um pai capazes de fazer aquilo a uma criança!
Não percebo como é que ninguém percebeu que a menina era vitíma de maus tratos, como é que não foi entregue a uma das mais do que muitas famílias dispostas a aceitar e amar crianças como esta!
Não consigo imaginar o que tenha sido a agonia dessa menina!
Não consigo pensar no tormento que deve ter sido a sua curta vida!
Não percebo como é que já se começam a arranjar atenuantes: que o bairro é problemático, que as pessoas vivem mal... Caramba! Há lá desculpa para uma coisas destas?!
Não percebo como é que, mesmo que consigam, de facto, provar que aquelas criaturas fizeram aquilo à menina - sim, porque já ouvi uma advogada lembrar que ainda é preciso provar! - daqui a poucos anos vão estar de novo à solta e continuar a sua vidinha tranquilos como se não fosse nada.
Definitivamente, há casos, em que a moldura penal não tem nada a ver com a aplicação da justiça! Por mim, para casos tão horrorosos quanto este, ficariam presos toda a vida! Porque não há desculpas! Nem acredito que criaturas destas se tornem, nem mesmo num dia remoto, pessoas normais!

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Delete

Há uns tempos apaguei um post neste blog.
Há uns dias um comentário no blog de outra pessoa.
Hoje escrevi e apaguei um comentário e dois posts.
Parece que ando com dúvidas quanto à fronteira que, forçosamente, é preciso estabelecer. Entre o que se diz e o que se deve calar. E, ainda assim... cá ando... sorridente!

terça-feira, 3 de maio de 2005

De volta

Pois, de volta, porque a vida continua.
Mas ainda com a sensação de falta de referências.

Fiz a viagem para baixo muito contrariada, como sempre.
Procurava a lua e não a via. Lembrava-me da última viagem para baixo, numa noite de lua cheia, enorme.
Nessa noite também não tinha querido voltar.
Nem nessa nem em todas as outras de que me lembro. Mas especialmente nessa.

Custa-me passar o Cávado, custa-me passar o Ave. É penoso passar o Douro e, quando as placas anúciam St.ª Maria da Feira sinto-me realmente contrariada.
E a viagem para baixo é penosa. Sempre!

Algum dia fico lá por cima...
Sim. Digo sempre isto. Chego a levar-me a sério.
Chego a pensar, meia divertida, que aquela cigana que insistiu em "ler-me a sina" no jardim no Campo Grande, tinha razão. Pelo menos alguma razão.

Algum dia vou para a Escócia, com bilhete só de ida.

Algum dia aceito a proposta daquele primo do meu pai, funcionário das Nações Únidas, e vou trabalhar para o outro lado do mundo. Mesmo para o outro lado do mundo. E fico lá...

Algum dia apanho um avião sem destino!

Mas esse dia nunca chega. Porque tudo me prende. Pessoas, animais, obrigações e até sítios! Recordações e planos. O passado, o presente e até o futuro! Mas um dia...

domingo, 1 de maio de 2005


Consegui acabar o trabalho ontem ao fim do dia. Mas antes de o terminar informaram-me que tinha morrido a minha Tia. A minha Tia-avó. Uma delas. Mas como não tenho realmente tias, e ela não tinha filhos nem netos, quando falava na "minha Tia" era nela. Ouvi a notícia como se não tivesse sido nada, acabei o que tinha que acabar, deitei-me cedo desta vez. Mas não dormi. De manhã pus o fio que me tinha oferecido quando ainda era pequena e fui para a Capela. Ela dizia que quando morresse ninguém choraria por ela. Gostava que soubesse que não é verdade! Agora vou para aqui, mas não vai ser uma viagem alegre. Obrigada Catarina por estragares o teu fim de semana e teres esperado por mim! Posted by Hello