quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2009

Humm... Dizer o quê, na verdade?!
Não sei bem, admito. Mas 2008 está prestes a deixar-nos e, embora tenha andado particularmente caladinha neste ano, não quiz deixar de marcar a data.

Não faço balanços, aliás, como já não os fazia nos anos precedentes. Dizer o quê?!

Dizer que neste ano fui mãe e que me sinto infinitamente grata pela graça que ela representa. Que me sinto grata à vida, em suma. Muito grata. Mesmo que, por vezes não pareça, mesmo que por vezes me queixe, me lamente, mesmo que por vezes chegue mesmo a chorar.
Tenho uma familia maravilhosa. Sim, eu sei que é um lugar comum, mas é verdade.

Infinitamente grata, sim. Pela Mafalda, e pelo Pai dela. Por ter os meus pais, o meu irmão e os meus avós, por ter amigos.

2008 foi o ano mais atribulado da minha vida, mas também o mais importante. Bem vistas as coisas, e por mais que tenha dito outra coisa: o mais feliz!

Que 2009 seja, para todos, um ano cheio de paz, de saúde e de realização.

Um muito, muito feliz 2009!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Natal

Há um ano escrevi isto. E era a mais pura das verdades.
Este ano não há nada disso. Nada.
Não é de farinha e açucar que é feito o meu Natal. Não faço filhoses, nem mexidos nem, tão-pouco, haverá shortbread na mesa.
O pedaço de madeira que sobrou do lume da lareira da noite de Natal do ano passado não se irá juntar ao lume nesta noite de Natal.
O meu Natal, que era feito de farinha e açucar, este ano não o será.

Este ano, pela primeira vez em toda a minha vida, não passarei a noite de Natal com os meus pais e avós. Não os verei, sequer.
O Natal, dito festa da família, obriga a separações, afinal. A separações que ocorrem pela primeira vez e que custam a gerir.
Este ano, mais do que em qualquer outro, gostava de estar com eles. Com eles e com o meu irmão. E não estarei.

Não comprei um único presente.
Nunca gostei do excessivo consumismo associada à quadra. Hoje, mais do que nunca, isso desagrada-me.
Espero ter a capacidade para fazer entender à minha filha que o Natal não é isso, o Natal não são coisas, não é confusão. O Natal é tão outra coisa.
A ela, que é tão pequenina ainda que não entende, darei o pequeno crusifixo que recebi da minha Tia Maria, quando eu era pequenina. Não consegui pensar noutro presente para lhe dar que tivesse mais significado. Um dia ela há-de entendê-lo, por completo.

O Natal é a festa do nascimento de Cristo. E tão poucas pessoas o vivem como tal.
Muitas há que o comemoram mais como um Carnaval. E isso aflige-me.
Podia dizer-se que isso não é assunto meu, que cada um o vive como quiser

Há melancolia no Natal. Não a melancolia doce que aconchega. Há melancolia triste também, e esta é assim.
E, no entanto, há luz e esperança. E há o que comemorar.

Mas este Natal, tenho a minha filha. E no meio de toda a confusão da quadra, é isso que é importante. Ela existe e está comigo.
Esta noite, na passagem para o dia de Natal, hei-de tâ-la nos braços.
Ela é o melhor dos presentes que alguma vez poderia ter recebido, ela é o meu Natal e, apesar de tudo, ela, como todos os bebés, é o sinal de que o Natal, afinal faz sentido. Todo o sentido.

Feliz Natal!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Saudades...

Por mais idiota que possa parecer (e por mais irritante que seja para quem me lê, porque agora não falo de outro assunto), tenho umas saudades imensas da Mafalda recém-nascida, do tamanho 1 das fraldas, dos primeiros fatinhos que já não lhe servem, dela nos primeiros dias, dos olhinhos papudos ainda que pouco se abriam, do início de tudo.
Tantas saudades dela, pequenina, pequenina e, no entanto, ela tem apenas um mês e meio, mas já tão diferente de quando nasceu.
Que saudades já!

[E como se pode gostar sempre mais um bocadinho deles, em cada dia, quando já os Amamos muito para além do possível, desde o primeiro segundo ?!]

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Coisas para as quais [não] nos preparam em relação à maternidade

Ter filhos é, de facto, a melhor coisa do mundo. A melhor; a anos luz de qualquer outra coisa nesta vida. Anos luz!
É incomparável e inenarrável e, por isso mesmo, seria inútil e patética qualquer tentativa para explicar o que sinto.

Ninguém nos prepara para gostar tanto de alguém, ninguém consegue explicar-nos que, de repente, uma pessoa pequenina, que já julgavamos amar para além do possível, nos vem provar que não há, neste tipo de amor, impossíveis, nem limites, nem modo de quantificar seja o que for; que não há nada, nada comparável e que é tão forte que não parece, sequer, humano.
E ninguém nos prepara porque não há, de facto, modo de o fazer. Porque não há palavras para o descrever, nem categorias para o arrumar, nem nada com o que se possa comparar. Num instante um pequeno ser sai de nós, olha-nos pela primeirissima vez e a nossa vida começa também naquele instante.

Mas existem outras coisas também. Existe o outro lado da maternidade. E para este também ninguém nos prepara, e é pena. Mas também para este parece ser difícil fazê-lo.
Durante a minha gravidez duas pessoas apenas me alertaram para ele, a minha prima e uma outra pessoa que não linko porque creio que já não tem blog, numa tentativa de me aliviar o impacto a que, inevitávelmente, seria sujeita.
Essa parte menos cor-de-rosa da maternidade também existe, as dificuldades são muitas e é bom contarmos com elas.

Apesar do excelente atendimento que tive no local onde a Mafalda nasceu, dois dias depois (menos umas horas até) depois do parto, estava em casa com uma bebé nos braços, absolutamente apaixonada por ela, mas ainda a tentar cair em mim depois de tão grande reviravolta na minha vida. Eu e o pai, ali estavamos, pais de primeira viagem, com um ser indefeso a nosso cargo.
Ensinaram-me muitas coisas mas não me avisaram que,por exemplo, um dia depois de estar em casa, ela podia começar a chorar desesperadamente, a contorcer-se. E nós... bom, nós contorciamos o coração sem saber o que fazer.
Telefonei para o Saúde 24 e expliquei os sintomas, respondi a todas as perguntas e, do outro lado, dizem-me que ela tem que ser vista numa urgência pediatrica de imediato, no máximo de 4 horas. Assim mesmo, sem mais explicações. E eu tremo, e choro, e sinto faltar-me o chão debaixo dos pés, e pegamos nela e voamos para as urgências do Dona Estefânia. E eram cólicas. Apenas cólicas, coisa natural e, parece, inevitável. É o processo de amadurecimento dos intestinos. É natural e não há por que se preocupar.

Pois. Não estava preparada, não.
Sabia que os bebés tinham cólicas, mas não estava preparada para as ver na minha filha tão pequenina. Não estava sequer preparada para a ouvir chorar sem que eu conseguisse aliviar-lhe, como por magia, todos os males.

Muito menos estava preparada para o que a minha prima e a M. tentaram alertar-me durante a gravidez: ter filhos é complicado e doloroso, e não apenas na hora do parto.
Ter filhos deixa-nos com os nervos em franja e o coração em frangalhos, o mundo desaba-nos inteiro na nossa cabeça, tudo nos dói estupidamente, todos os medos são nossos, andamos cansadas, ninguém nos compreende, já não sabemos quem somos e para onde foi a pessoa que eramos antes, não nos reconhecemos nem no corpo, que já não é de grávida mas que continua pesado e sem as curvas de antes, nem na alma, que já não é a mesma, não temos tempo para nós nem para nada e, pior de tudo, estamos sózinhas nisto, e ninguém nos compreende.
Somos frágeis como o mais fino cristal mas, ao mesmo tempo, fortes como a mais alta montanha, se se trata de defender a nossa cria. Ferozes mesmo, num instinto de animal, muito para lá do racional, que deve ser a única coisa que herdamos dos tempos mais primitivos.

Ninguém nos prepara verdadeiramente para este impacto, porque, tal como não é possível prevenir-nos com realismo para a dimensão do amor que vamos sentir, também não o é para esse enorme impacto emocional que nos vira, por completo, do avesso.
Ouvi as palavras da minha prima e da M., ouvi-as com atenção e agradecida. Sabia que só podiam estar a dizer verdades, sabia que só por me quererem bem estavam a falar-me das coisas menos fácei e luminosas que me esperavam, enquanto todas as outras pessoas apenas referiam as maravilhas que aí vinham. Ouvia-as mas, apesar de ter muito presentes as suas palavras, eram apenas palavras e nenhuma palavra é suficiente para definir este "coice emocional".

Ter filhos não é fácil. Ter filhos também dói. Dói para além do parto, sim.
É bom que se tenha isso presente. É bom que não se mistifique e mitifique a experiência da maternidade.
Mas ter filhos é bom. Ter filhos é, de facto, a melhor coisa do mundo! Mesmo! Eles valem, tudo, tudo, tudo! E não há nada mais maravilhoso do que este anjo em forma de menina pequenina que dorme agora aqui mesmo ao meu lado.

Obrigada prima (não me esqueci do que te devo, apesar de parecer!)! Obrigada M.!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

29-10-2008

Chama-se Mafalda e nasceu na noite do dia 29 de Outubro, como disse, simpáticamente, a minha prima Clara.

Também como ela disse, o mundo mudou. Pelo menos o meu mundo! E dorme agora no meu colo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

40s

E às 40 semanas, exactamente às 40 semanas, esta menina faz-se esperar. E isto contra todas as previsões de tios, tios, pais...

Dizem que o que é bom faz-se esperar...
Dizem... :)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Miscelânea

Quanto mais tempo passo sem escrever aqui, mais me custa fazê-lo e, no entanto, todos os dias sinto que perco alguma coisa ao não o fazer, porque sei que aqui as memórias ficam mais vivas do que de qualquer outro modo, e sei também que, se todos os dias são diferentes e irrepetíveis, estes são mais diferentes e mais irrepetíveis do que todos os outros. Com as coisas boas e com as dificuldades, que as há, e quem disser que a gravidez é só maravilhas e estado de graça, ou nunca passou por ela, ou mente. Porque sim, existem momentos difíceis, sim, existem, dificuldades e sensibilidades levadas ao extremo e mudanças em avalanche e todas essas coisas e muito mais. E existem as outras coisas; as coisas boas, as especiais, as mágicas, aquelas que nem temos palavras para as descrever, daquelas que podem dar origem a que se pronunciem uma série enorme de lugares comuns e, mesmo assim, não se consiga explicar o que se sente e o que se vive.

A barriga cresce. E esta é, talvez, a evidência mais pateta que posso escrever. Mas é assim. É marcante. É essa a minha realidade agora.
Cresce e eu não vejo os pés ao descer as escadas, dificilmente seco decentemente os dedinhos dos pés ou corto as unhas.
Tenho a leveza de um elefante cruzado com uma baleia, sento-me com a elegância de um leão marinho e passo as noites a mudar de posição na cama.

O tempo passa tão depressa que num dia a semana está a começar e no outro já passou, ou pelo menos é assim que as vivo.
Fazer obras, arrumações e mudanças nesta fase da gravidez é tão idiota quanto difícil, e devia mesmo ser proibido (caso não fosse tão absolutamente necessário - e é-o!).

Procuro não pensar muito no parto em si, e no que isso implica para bebé e mãe. Mas acabo por ler tudo aquilo a que tenho acesso.
Às vezes acho que é o processo mais natural do mundo, e que nascemos para isto mesmo. Outras acho que é uma prova de fogo para as duas partes, e sinto medo.

Finalmente soubemos, já há duas semanas.
Pensei que não iriamos saber nunca, até que nascesse. Depois de tantas tentativas e outros tantos fracassos. E gostava, sim. Gostava muito de saber, gostava de poder dizer mesmo ele ou ela, de usar um nome, mas já não pensava nisso. Estava resignada.
Afinal soubemos: é menina.

Gostaria igualmente de um menino ou menina. É verdade.
Mas estava demasiado convencida de que era menina. Estranharia - acho - se fosse menino, mesmo que, realmente, gostasse igualmente.
Arriscaria dizer que o momento em que a médica disse que era menina de caras, e olhei para o monitor, deve ter sido o momento mais feliz da minha vida até agora. Tolice? Talvez. Acho que sim. Mas posso sempre culpar as hormonas. Na verdade acho que foi por a ter sentido mais perto, mais definida, com identidade finalmente. E esta mesmo: cada vez mais perto.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Das férias II

Não foram na minha praia, pois não. Foram lá em cima, numa casa gentilmente emprestada por amigos. E eu deixei-me conquistar, não sem um pequeno sentimento de culpa, como que por me achar a trair a praia que me acolheu todos os Verões desde a infância. Mas depois a culpa desvaneceu-se.

As saudades não. Olhava para o mar e pensava como estariam as ondas por lá, punha um pé na água e pensava qual seria a temperatura da água lá, ouvia o chilrear das crianças e pensava como estarão mais crescidas as das minhas amigas, olhava as pessoas e lembrava-me das pessoas com quem vivi todos estes verões.

Não foram na minha praia mas foram no meu Norte. Que eu bem sei que está mal formulada a questão e que sou eu que lhes pertenço e não o contrário.

Naquela praia os campos de milho chegam quase ao areal, os muros são de granito e o pão sabe a bolos. O areal fica quase ao sair da porta e não há preocupações com a indumentária e a vida social. Vive-se, simplesmente. Desfruta-se.

As gaivotas pedem-nos comida ao fim da tarde, insistentemente, e eu gostei de lhes dar pão. Há rochas, pedrinhas redondas que parecem feitas para as colocarmos em colares, um mar acolhedor e um areal quase só para nós. Há dunas e uma capela de granito nas arribas e o tempo é o que nós quisermos.

E há mais do que isso. Eramos nós. Só nós. Os dois, os três. Distância e familia na conta certa. Nós. Nós! E isso contaria só por si.

Nestas férias houve novidades, estreias absolutas, que de tão naturais quase não se notaram como tal. E houve o regresso a lugares que acho que conheço antes de existir, por mais estranho que isso possa parecer, e a paz e a segurança que isso me trás.

E houve a volta e o coração que se aperta sempre nessas alturas. Sempre.Aperta-se ao virar as costas ao mar e à areia, aperta-se ao ouvir o som da porta da casa a fechar-se atrás de nós, aperta-se aos primeiros metros percorridos pelo carro, aperta-se mais abaixo, ao passar pelo Porto de Leixões e, mais ainda, ao passar o Douro. E nessa altura é difícl resistir como até aí, e olho para trás. É a volta, sem mais nada a fazer.

Para trás ficaram poucos dias mas muitas coisas.
E ficou o que o coração conseguio guardar. Isso e as coisas que encomendámos lá por cima para este bebé e que a(o) aconchegarão também a ela(e). Também a ela(e)... também mesmo antes de nascer.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Das férias

Agosto chegou ao fim e eu também as tive.
Pequeninas, pequeninas. Mas cheias que nem um ovo.
E por pateta que pareça, talvez por me ter esquecido de levar a máquina fotográfica (apesar de ter acesso às imagens pacientemente captadas pelo paizinho), guardo as imagens destas férias de outros modos.

Souberam-me pela vida...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Silly season


O calendário é implacável. Cai-nos em cima, mesmo quando fazemos um esforço para nos distrairmos e fingir que não estamos a ver que estamos no dia e mês que estamos.
Ela está aí, a silly season. Em força. Reflectida em todas as coisas ( e ausências).

Fecho os olhos com força e abano a cabeça como que a tentar afastar de mim as lembranças associadas à época. Mais do que as lembranças, as sensações. Coladas à pele já, de tantos anos de hábitos, gestos e vivências repetidos.
Não consigo.
Tenho conseguido conter as faltas, mas não apagá-las.

Não me lembro de mim assim. Não me lembro de um Agosto longe do mar. Não me lembro mesmo.
E ouço, acidentalmente, esta música e as coisas caiem em avalanche: o cheiro do mar; a maresia nos cabelos; a água fria, a areia nos pés; as amigas se sempre; a ausência de horários e problemas, a sensação de viver, temporáriamente, num mundo aparte, só nosso, fora de todas as coordenadas de espaço e tempo; os risos que repetimos iguais, desde crianças; a cumplicidade serena e segura; os cheiros...

Não sei quantas vezes ouvi esta música lá. Em noites estreladas a ver as pequenas luzes das traineiras no mar, ou com o manto de maresia que me aconhegava e não deixava ver quase nada. Ouvi muitas vezes, não porque a escolhesse, mas porque sim, porque alguém, nalgum momento, nalgum lugar, a passava. Talvez porque ela foi escrita, originalmente, tendo como inspiração, esta praia. A minha praia...
Não importa.

Este ano não. Este ano não é assim. Não é igual aos outros. Este ano não estou lá e, por isso, sinto-lhe a falta. Como quem sente a falta de uma parte de si mesma.
Mas este ano é diferente em tudo. É um ano de espera.
Para o ano também não será igual, porque nada nunca mais será igual. A despreocupação, a ausência de horários e obrigações não será mais a mesma, mas isso não importa. Ou importa, mas não é coisa má, é boa, muito boa.
Para o ano a vida recomeça. Para o ano alguém há-de começar a sentir a maresia e essa água fria, alguém há-de experimentar a areia e começar a descobrir risos e amizades cumplices, como nós, mães, descobrimos há tantos anos já.
Para o ano... Para o ano a vida recomeça.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Viagem



O carro deslizava apressado em direcção a norte. Por vezes tenho a sensação de que para o carro estas viagens são já rotina. Mas talvez não sejam.

Eu ainda me choco entre o querer - ou precisar- encontrar rotinas neste modo de vida, e entre o querer negá-las, impedir que se instalem com esse carácter. Aceitar alguma coisa como rotina é dar-lhe um carácter de longevidade no tempo, de inalterabilidade, com a qual não posso lidar. Não estas que fazem agora a nossa vida.
Estas não posso.
Preciso de dar-lhes o carácter de transitório. Tão transitório quanto possível. Passageiro apenas.
Porque preciso de rotinas, nossas. De espaço, nosso. De vida, nossa.
Tempo e coisas divididas entre casa dos pais e dos sogros. Vida dividida e apertada em malas de viagens que se fazem e desfazem duas vezes por semana.
A nossa casa à espera. Planos adiados e, algumas vezes, indefinidos. A barriga cada dia maior. Os movimentos, dentro dela, cada vez mais fortes, telúricos, já visíveis.

Para trás ficavam, como sempre, nos últimos meses, por mais uns dias, a cadela, inseparável até aqui, a casa onde se cresceu, a égua, as árvores, as flores que já não rego e que evito espreitar para não sentir mais vivo o abandono a que as votei, o cheiro do feno aquecido do Sol. Ficavam também a consulta, as compras no Ikea e as filas intermináveis, e a descoberta de como esta barriga nos pode ajudar a sair desses aglomerados de gente e confusão.
Para trás ficavam planos que se arrastavam indefinidos há tempo, mas surge uma nova realidade. Menos fácil do que se esperava, mas mais clara e definida e, por isso, melhor, apesar de tudo.
Preciso de certezas, de rumo certo, de um caminho a percorrer.

Desta vez não adormeço. Desta vez falamos durante toda a viagem.
Ele, segura-me a mão, a tempos, enquanto guia, e isso ajuda.
Ele segura-me, simplesmente.

Para-se junto ao mosteiro. É tarde já. Passagem de um dia para o outro. A noite fresca. Os cafés fechados. O cheiro dos plátanos. O silêncio. As mangas compridas do casaso dele a cairem-me sobre as mãos e a protegerem-me da brisa da noite. O edifício, enorme, sólido, senhor do tempo e da memória, e nós, os dois (os três), apenas, e os nossos passos lentos, cadenciados e sincrónicos, à volta dele. A nossa pequenez junto às portas, as pontas dos nossos dedos a tactearem os sulcos deixados nas suas pedras há mais de seiscentos anos já. Santa Maria da Vitória.
Desta vez não soavam fados nas esplanadas, mas era igualmente bom.
Que afinal devemos sempre voltar aos sítios onde nos sentimos bem.

Depois, no final da viagem, no final de tudo, o quarto e a porta que se fecha, por fim. Não o que eu queria, não como queria. Mas fecha-se; finalmente.
Porque a vida a dois é, afinal, tão mais simples do que tudo o resto. Tão mais compensadora. Tão mais forte.
Porque a vida pode caber apenas entre quatro paredes, e os embates e os desgastes, quotidianos, constantes e variados, vêm de fora, sempre.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Tempo


... quando reparo, estamos a horas de passar do segundo para o terceiro trimestre. O último.

E quanto mais perto está o futuro, mais perto está o passado.
Quanto mais fortes são os laços com o futuro, mais fortes se tornam também com o passado. Tão fortes...
Todos, todos tão presentes! Tãos meus! E eu tão deles todos!

terça-feira, 22 de julho de 2008

Clarinete


O meu avô J. toca [ainda] clarinete. Conhece os compositores, chegou a ensinar, aprecia opera.
Era eu menina pequena, que já andava pelo meu pé, mas ainda pedia colo, de tranças claras e compridas, onde os cabelos se soltavam, no final, a denunciar os caracóis largos que na altura ainda tinha; e ele levava-me para esses encontros.

As memórias são já vagas. Muito vagas. O cheiro, acho que da madeira, do salão antigo, a compenetração de alguns adultos e de meninos bem mais crescidos do que eu.
Há sempre alguma solenidade na música, quase uma reverência que nos invade, não sei bem se pelos ouvidos se também pelo ar que se respira quando nos deixamos invadir por ela.

Nunca, para desgosto dele, me deixei domar pelo rigor das pautas.
Gostava dos sons, da melodia, da harmonia, dos sentimentos que a música fazia adivinhar apenas, a uma menina que ainda tinha vivido pouco para os reconhecer. Gostava que ela tomasse conta de mim e de me deixar levar.
Gostava, mas nunca aprendi a tocar nenhum instrumento a sério.
As pautas... sempre as pautas. Não gostava de as ler. E apesar de me gabarem as mãos de dedos longos para pianista, o pouco que toquei em piano foi sempre mais por intuição do que por conhecimento de facto. E foi bem pouco.

Depois a vida enche-nos de solicitações e o tempo parece que nos é roubado, sem nem sabermos como. Há coisas que, simplesmente, vão ficando longe e se esfumam do nosso dia-a-dia.
Há tantos anos que não sou essa menina. Tantos quanto o mostram a fotografia que alguém tirou, e que existe em casa dos meus avós, do meu avô, muito mais novo, a ensinar um rapazito que nem sei quem era e de eu estar, de facto, lá, com as tais tranças, pequenina mas com ar de respeito.

Voltei a ouvir Mozart, mais por esta criança, confesso. O que não deixa de ser um motivo tão ou mais válido do que qualquer outro.
Ela agradece com pequenos toques enquanto lhe ofereço isto. E eu agradeço-lhe a ela a possibilidade de, longe no espaço e no tempo, fechar os olhos e estar lá de novo, e ser aquela menina pequenina. Ser aquela menina pequenina e tê-la a ela.
E à vida, ter estas memórias que me seguram e dão identidade, no meio de tudo o que, de avesso, surge.
Estar lá, lá longe de todas as coisas complicadas da vida.
Há momentos assim, minutos, que nos sustentam.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mudanças

Sempre fui avessa a mudanças. Sempre. Desde que me lembro de mim.
Preciso de estabilidade, gosto de âncoras intemporais e referências imutáveis.
Acho que tenho muito de árvore, que precisa de ter as raízes profundas e seguras e se me tirarem isso sinto-me perdida, incompleta e acho que definho.

Sou assim com tudo. Guardo tudo porque não tenho coragem de me defazer de nada do que fez parte da minha vida.
Guardo coisas, sítios, pessoas e afectos.

Admiro (cada dia mais) as pessoas que são capazes de viver em qualquer parte do mundo e serem tão, ou mais, felizes do que no seu sítio.

Do mesmo modo, sou assim também com este blog, ou não seria ele meu.
Teve o mesmo template por quase 4 anos. Inaterável.

Bem sei que as minhas capacidades para o mudar são demasiado limitadas para me meter em aventuras mas, ainda assim, podia ter mudado alguma coisa. Ou tudo. Podia mesmo ter mudado de blog, mas não.
Era meu, muito meu, assim. Meu há muito tempo. Muito "eu".

Hoje cedi. Porque alguma coisa se tornou mais importante do que tudo.
Hoje cedi e coloquei a tal barrinha pequenina, ali ao lado.
Pequenina. Espécie de compromisso entre manter o blog como meu, como sempre foi, e deixar que também nele, como em tudo o resto na minha vida, esta criança tomasse o lugar de relevo.
O blog é meu. Continuará a ser, como até aqui. Mas ela... (ou ele) é na minha vida tudo aquilo que, imagino, todas as mães sabem o que é.
Portanto mudei alguma coisa, pois. E com isso lá se foi o contador, lá se foi, sem querer, a ordem das coisas ali ao lado, lá houve alterações na letra. Enfim... mudou e, por um lado, isso basta-me para o sentir diferente, coisa diversa do que era. De modo que não sei até que ponto não mudarei mais. Até onde me sentir confortável com isso, claro.

Porque afinal há mesmo mudanças que são inevitáveis. E porque mais do que mudanças, são evoluções.
Não gosto de mudanças. Dou-me mal com elas, sofro, muito, porque mudar significa sempre perder o que se tinha ou se era. E eu não consigo ser uma coisa diferente da que sou, da que sempre fui, do que é a minha essência.
Mas, bem vistas as coisas, é apenas uma evolução. É isso.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

In love*

Absolutamente, completamente, estúpidamente... por esta criança.
(ok. e pelo paizinho também, se querem saber, pois... Naturalmente.)

* Post insuportavelmente enjoativo! Tanto quanto surpreendente, porque não me lembro de fazer declarações destas assim, com todas as letras, e sem arabescos, artíficios de linguagem, substilezas, ou coisas afins aos quatro ventos (nem mesmo só para mim).
Surpreendente ou... nem por isso! ;)