quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Miscelânea

Quanto mais tempo passo sem escrever aqui, mais me custa fazê-lo e, no entanto, todos os dias sinto que perco alguma coisa ao não o fazer, porque sei que aqui as memórias ficam mais vivas do que de qualquer outro modo, e sei também que, se todos os dias são diferentes e irrepetíveis, estes são mais diferentes e mais irrepetíveis do que todos os outros. Com as coisas boas e com as dificuldades, que as há, e quem disser que a gravidez é só maravilhas e estado de graça, ou nunca passou por ela, ou mente. Porque sim, existem momentos difíceis, sim, existem, dificuldades e sensibilidades levadas ao extremo e mudanças em avalanche e todas essas coisas e muito mais. E existem as outras coisas; as coisas boas, as especiais, as mágicas, aquelas que nem temos palavras para as descrever, daquelas que podem dar origem a que se pronunciem uma série enorme de lugares comuns e, mesmo assim, não se consiga explicar o que se sente e o que se vive.

A barriga cresce. E esta é, talvez, a evidência mais pateta que posso escrever. Mas é assim. É marcante. É essa a minha realidade agora.
Cresce e eu não vejo os pés ao descer as escadas, dificilmente seco decentemente os dedinhos dos pés ou corto as unhas.
Tenho a leveza de um elefante cruzado com uma baleia, sento-me com a elegância de um leão marinho e passo as noites a mudar de posição na cama.

O tempo passa tão depressa que num dia a semana está a começar e no outro já passou, ou pelo menos é assim que as vivo.
Fazer obras, arrumações e mudanças nesta fase da gravidez é tão idiota quanto difícil, e devia mesmo ser proibido (caso não fosse tão absolutamente necessário - e é-o!).

Procuro não pensar muito no parto em si, e no que isso implica para bebé e mãe. Mas acabo por ler tudo aquilo a que tenho acesso.
Às vezes acho que é o processo mais natural do mundo, e que nascemos para isto mesmo. Outras acho que é uma prova de fogo para as duas partes, e sinto medo.

Finalmente soubemos, já há duas semanas.
Pensei que não iriamos saber nunca, até que nascesse. Depois de tantas tentativas e outros tantos fracassos. E gostava, sim. Gostava muito de saber, gostava de poder dizer mesmo ele ou ela, de usar um nome, mas já não pensava nisso. Estava resignada.
Afinal soubemos: é menina.

Gostaria igualmente de um menino ou menina. É verdade.
Mas estava demasiado convencida de que era menina. Estranharia - acho - se fosse menino, mesmo que, realmente, gostasse igualmente.
Arriscaria dizer que o momento em que a médica disse que era menina de caras, e olhei para o monitor, deve ter sido o momento mais feliz da minha vida até agora. Tolice? Talvez. Acho que sim. Mas posso sempre culpar as hormonas. Na verdade acho que foi por a ter sentido mais perto, mais definida, com identidade finalmente. E esta mesmo: cada vez mais perto.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Das férias II

Não foram na minha praia, pois não. Foram lá em cima, numa casa gentilmente emprestada por amigos. E eu deixei-me conquistar, não sem um pequeno sentimento de culpa, como que por me achar a trair a praia que me acolheu todos os Verões desde a infância. Mas depois a culpa desvaneceu-se.

As saudades não. Olhava para o mar e pensava como estariam as ondas por lá, punha um pé na água e pensava qual seria a temperatura da água lá, ouvia o chilrear das crianças e pensava como estarão mais crescidas as das minhas amigas, olhava as pessoas e lembrava-me das pessoas com quem vivi todos estes verões.

Não foram na minha praia mas foram no meu Norte. Que eu bem sei que está mal formulada a questão e que sou eu que lhes pertenço e não o contrário.

Naquela praia os campos de milho chegam quase ao areal, os muros são de granito e o pão sabe a bolos. O areal fica quase ao sair da porta e não há preocupações com a indumentária e a vida social. Vive-se, simplesmente. Desfruta-se.

As gaivotas pedem-nos comida ao fim da tarde, insistentemente, e eu gostei de lhes dar pão. Há rochas, pedrinhas redondas que parecem feitas para as colocarmos em colares, um mar acolhedor e um areal quase só para nós. Há dunas e uma capela de granito nas arribas e o tempo é o que nós quisermos.

E há mais do que isso. Eramos nós. Só nós. Os dois, os três. Distância e familia na conta certa. Nós. Nós! E isso contaria só por si.

Nestas férias houve novidades, estreias absolutas, que de tão naturais quase não se notaram como tal. E houve o regresso a lugares que acho que conheço antes de existir, por mais estranho que isso possa parecer, e a paz e a segurança que isso me trás.

E houve a volta e o coração que se aperta sempre nessas alturas. Sempre.Aperta-se ao virar as costas ao mar e à areia, aperta-se ao ouvir o som da porta da casa a fechar-se atrás de nós, aperta-se aos primeiros metros percorridos pelo carro, aperta-se mais abaixo, ao passar pelo Porto de Leixões e, mais ainda, ao passar o Douro. E nessa altura é difícl resistir como até aí, e olho para trás. É a volta, sem mais nada a fazer.

Para trás ficaram poucos dias mas muitas coisas.
E ficou o que o coração conseguio guardar. Isso e as coisas que encomendámos lá por cima para este bebé e que a(o) aconchegarão também a ela(e). Também a ela(e)... também mesmo antes de nascer.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Das férias

Agosto chegou ao fim e eu também as tive.
Pequeninas, pequeninas. Mas cheias que nem um ovo.
E por pateta que pareça, talvez por me ter esquecido de levar a máquina fotográfica (apesar de ter acesso às imagens pacientemente captadas pelo paizinho), guardo as imagens destas férias de outros modos.

Souberam-me pela vida...

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Silly season


O calendário é implacável. Cai-nos em cima, mesmo quando fazemos um esforço para nos distrairmos e fingir que não estamos a ver que estamos no dia e mês que estamos.
Ela está aí, a silly season. Em força. Reflectida em todas as coisas ( e ausências).

Fecho os olhos com força e abano a cabeça como que a tentar afastar de mim as lembranças associadas à época. Mais do que as lembranças, as sensações. Coladas à pele já, de tantos anos de hábitos, gestos e vivências repetidos.
Não consigo.
Tenho conseguido conter as faltas, mas não apagá-las.

Não me lembro de mim assim. Não me lembro de um Agosto longe do mar. Não me lembro mesmo.
E ouço, acidentalmente, esta música e as coisas caiem em avalanche: o cheiro do mar; a maresia nos cabelos; a água fria, a areia nos pés; as amigas se sempre; a ausência de horários e problemas, a sensação de viver, temporáriamente, num mundo aparte, só nosso, fora de todas as coordenadas de espaço e tempo; os risos que repetimos iguais, desde crianças; a cumplicidade serena e segura; os cheiros...

Não sei quantas vezes ouvi esta música lá. Em noites estreladas a ver as pequenas luzes das traineiras no mar, ou com o manto de maresia que me aconhegava e não deixava ver quase nada. Ouvi muitas vezes, não porque a escolhesse, mas porque sim, porque alguém, nalgum momento, nalgum lugar, a passava. Talvez porque ela foi escrita, originalmente, tendo como inspiração, esta praia. A minha praia...
Não importa.

Este ano não. Este ano não é assim. Não é igual aos outros. Este ano não estou lá e, por isso, sinto-lhe a falta. Como quem sente a falta de uma parte de si mesma.
Mas este ano é diferente em tudo. É um ano de espera.
Para o ano também não será igual, porque nada nunca mais será igual. A despreocupação, a ausência de horários e obrigações não será mais a mesma, mas isso não importa. Ou importa, mas não é coisa má, é boa, muito boa.
Para o ano a vida recomeça. Para o ano alguém há-de começar a sentir a maresia e essa água fria, alguém há-de experimentar a areia e começar a descobrir risos e amizades cumplices, como nós, mães, descobrimos há tantos anos já.
Para o ano... Para o ano a vida recomeça.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Viagem



O carro deslizava apressado em direcção a norte. Por vezes tenho a sensação de que para o carro estas viagens são já rotina. Mas talvez não sejam.

Eu ainda me choco entre o querer - ou precisar- encontrar rotinas neste modo de vida, e entre o querer negá-las, impedir que se instalem com esse carácter. Aceitar alguma coisa como rotina é dar-lhe um carácter de longevidade no tempo, de inalterabilidade, com a qual não posso lidar. Não estas que fazem agora a nossa vida.
Estas não posso.
Preciso de dar-lhes o carácter de transitório. Tão transitório quanto possível. Passageiro apenas.
Porque preciso de rotinas, nossas. De espaço, nosso. De vida, nossa.
Tempo e coisas divididas entre casa dos pais e dos sogros. Vida dividida e apertada em malas de viagens que se fazem e desfazem duas vezes por semana.
A nossa casa à espera. Planos adiados e, algumas vezes, indefinidos. A barriga cada dia maior. Os movimentos, dentro dela, cada vez mais fortes, telúricos, já visíveis.

Para trás ficavam, como sempre, nos últimos meses, por mais uns dias, a cadela, inseparável até aqui, a casa onde se cresceu, a égua, as árvores, as flores que já não rego e que evito espreitar para não sentir mais vivo o abandono a que as votei, o cheiro do feno aquecido do Sol. Ficavam também a consulta, as compras no Ikea e as filas intermináveis, e a descoberta de como esta barriga nos pode ajudar a sair desses aglomerados de gente e confusão.
Para trás ficavam planos que se arrastavam indefinidos há tempo, mas surge uma nova realidade. Menos fácil do que se esperava, mas mais clara e definida e, por isso, melhor, apesar de tudo.
Preciso de certezas, de rumo certo, de um caminho a percorrer.

Desta vez não adormeço. Desta vez falamos durante toda a viagem.
Ele, segura-me a mão, a tempos, enquanto guia, e isso ajuda.
Ele segura-me, simplesmente.

Para-se junto ao mosteiro. É tarde já. Passagem de um dia para o outro. A noite fresca. Os cafés fechados. O cheiro dos plátanos. O silêncio. As mangas compridas do casaso dele a cairem-me sobre as mãos e a protegerem-me da brisa da noite. O edifício, enorme, sólido, senhor do tempo e da memória, e nós, os dois (os três), apenas, e os nossos passos lentos, cadenciados e sincrónicos, à volta dele. A nossa pequenez junto às portas, as pontas dos nossos dedos a tactearem os sulcos deixados nas suas pedras há mais de seiscentos anos já. Santa Maria da Vitória.
Desta vez não soavam fados nas esplanadas, mas era igualmente bom.
Que afinal devemos sempre voltar aos sítios onde nos sentimos bem.

Depois, no final da viagem, no final de tudo, o quarto e a porta que se fecha, por fim. Não o que eu queria, não como queria. Mas fecha-se; finalmente.
Porque a vida a dois é, afinal, tão mais simples do que tudo o resto. Tão mais compensadora. Tão mais forte.
Porque a vida pode caber apenas entre quatro paredes, e os embates e os desgastes, quotidianos, constantes e variados, vêm de fora, sempre.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Tempo


... quando reparo, estamos a horas de passar do segundo para o terceiro trimestre. O último.

E quanto mais perto está o futuro, mais perto está o passado.
Quanto mais fortes são os laços com o futuro, mais fortes se tornam também com o passado. Tão fortes...
Todos, todos tão presentes! Tãos meus! E eu tão deles todos!

terça-feira, 22 de julho de 2008

Clarinete


O meu avô J. toca [ainda] clarinete. Conhece os compositores, chegou a ensinar, aprecia opera.
Era eu menina pequena, que já andava pelo meu pé, mas ainda pedia colo, de tranças claras e compridas, onde os cabelos se soltavam, no final, a denunciar os caracóis largos que na altura ainda tinha; e ele levava-me para esses encontros.

As memórias são já vagas. Muito vagas. O cheiro, acho que da madeira, do salão antigo, a compenetração de alguns adultos e de meninos bem mais crescidos do que eu.
Há sempre alguma solenidade na música, quase uma reverência que nos invade, não sei bem se pelos ouvidos se também pelo ar que se respira quando nos deixamos invadir por ela.

Nunca, para desgosto dele, me deixei domar pelo rigor das pautas.
Gostava dos sons, da melodia, da harmonia, dos sentimentos que a música fazia adivinhar apenas, a uma menina que ainda tinha vivido pouco para os reconhecer. Gostava que ela tomasse conta de mim e de me deixar levar.
Gostava, mas nunca aprendi a tocar nenhum instrumento a sério.
As pautas... sempre as pautas. Não gostava de as ler. E apesar de me gabarem as mãos de dedos longos para pianista, o pouco que toquei em piano foi sempre mais por intuição do que por conhecimento de facto. E foi bem pouco.

Depois a vida enche-nos de solicitações e o tempo parece que nos é roubado, sem nem sabermos como. Há coisas que, simplesmente, vão ficando longe e se esfumam do nosso dia-a-dia.
Há tantos anos que não sou essa menina. Tantos quanto o mostram a fotografia que alguém tirou, e que existe em casa dos meus avós, do meu avô, muito mais novo, a ensinar um rapazito que nem sei quem era e de eu estar, de facto, lá, com as tais tranças, pequenina mas com ar de respeito.

Voltei a ouvir Mozart, mais por esta criança, confesso. O que não deixa de ser um motivo tão ou mais válido do que qualquer outro.
Ela agradece com pequenos toques enquanto lhe ofereço isto. E eu agradeço-lhe a ela a possibilidade de, longe no espaço e no tempo, fechar os olhos e estar lá de novo, e ser aquela menina pequenina. Ser aquela menina pequenina e tê-la a ela.
E à vida, ter estas memórias que me seguram e dão identidade, no meio de tudo o que, de avesso, surge.
Estar lá, lá longe de todas as coisas complicadas da vida.
Há momentos assim, minutos, que nos sustentam.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mudanças

Sempre fui avessa a mudanças. Sempre. Desde que me lembro de mim.
Preciso de estabilidade, gosto de âncoras intemporais e referências imutáveis.
Acho que tenho muito de árvore, que precisa de ter as raízes profundas e seguras e se me tirarem isso sinto-me perdida, incompleta e acho que definho.

Sou assim com tudo. Guardo tudo porque não tenho coragem de me defazer de nada do que fez parte da minha vida.
Guardo coisas, sítios, pessoas e afectos.

Admiro (cada dia mais) as pessoas que são capazes de viver em qualquer parte do mundo e serem tão, ou mais, felizes do que no seu sítio.

Do mesmo modo, sou assim também com este blog, ou não seria ele meu.
Teve o mesmo template por quase 4 anos. Inaterável.

Bem sei que as minhas capacidades para o mudar são demasiado limitadas para me meter em aventuras mas, ainda assim, podia ter mudado alguma coisa. Ou tudo. Podia mesmo ter mudado de blog, mas não.
Era meu, muito meu, assim. Meu há muito tempo. Muito "eu".

Hoje cedi. Porque alguma coisa se tornou mais importante do que tudo.
Hoje cedi e coloquei a tal barrinha pequenina, ali ao lado.
Pequenina. Espécie de compromisso entre manter o blog como meu, como sempre foi, e deixar que também nele, como em tudo o resto na minha vida, esta criança tomasse o lugar de relevo.
O blog é meu. Continuará a ser, como até aqui. Mas ela... (ou ele) é na minha vida tudo aquilo que, imagino, todas as mães sabem o que é.
Portanto mudei alguma coisa, pois. E com isso lá se foi o contador, lá se foi, sem querer, a ordem das coisas ali ao lado, lá houve alterações na letra. Enfim... mudou e, por um lado, isso basta-me para o sentir diferente, coisa diversa do que era. De modo que não sei até que ponto não mudarei mais. Até onde me sentir confortável com isso, claro.

Porque afinal há mesmo mudanças que são inevitáveis. E porque mais do que mudanças, são evoluções.
Não gosto de mudanças. Dou-me mal com elas, sofro, muito, porque mudar significa sempre perder o que se tinha ou se era. E eu não consigo ser uma coisa diferente da que sou, da que sempre fui, do que é a minha essência.
Mas, bem vistas as coisas, é apenas uma evolução. É isso.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

In love*

Absolutamente, completamente, estúpidamente... por esta criança.
(ok. e pelo paizinho também, se querem saber, pois... Naturalmente.)

* Post insuportavelmente enjoativo! Tanto quanto surpreendente, porque não me lembro de fazer declarações destas assim, com todas as letras, e sem arabescos, artíficios de linguagem, substilezas, ou coisas afins aos quatro ventos (nem mesmo só para mim).
Surpreendente ou... nem por isso! ;)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

24s

Este blog não foi transformado num baby-blog, como amistosamente (e em brincadeira) alguém lembrou a hipótese. Até nem tem a tal barrinha lá em cima.

Não foi, mas também não tem restado nada mais. Está transformado num blog hibernado que, de vez em quando, abre um olho, devagarinho, se muda vagarosamente de posição, e volta a dormir.
É mais assim que ele agora anda.

Enquanto isso a vida da dona dá voltas e voltas. Muitas.
Muitas mudanças, muitas adaptações, muitas coisas ainda por mudar e por fazer e por viver e...

E, no meio deste turbilhão, e por falta de tempo (e de organização mental e coisas assim) para escrever um post decente, destaca-se uma coisa, sim.
A mais importante de todas. Dizem as ecografias e as médicas que esta criança faz hoje 24 semanas.

É meiguinha. Sinto-a, já há tempo. Sinto-a mexer-se, mudar de posição, sinto-a tocar-me (há partes que não sei se são minhas ou dela), mas não costuma dar pontapés.
Dorme as manhãs e prefere as tardes e as noites. Já foi mais noctívaga, apesar de tudo.
Conheço-lhe os ritmos e mesmo algumas reacções a determinados estímulos.

Cresce bem e decidida e tem um narizinho arrebitado. Mas insiste (e insiste, e insiste...) em não deixar confirmar se é menino ou menina.

Muitas vezes acho que não estou à altura dela, que não estou preparada, que não tenho a força suficiente, que... Penso. Muitas vezes.
Mas também penso, às vezes, que não tenho o direito de sentir sequer estas coisas e que se não estou à altura, que aprenda a estar, que se não estou preparada, que me prepare (depressa), que se não tenho força, tenho que a arranjar, que...

Não são só coisas bonitas, estas da maternidade (ou da vida, me geral, e não da maternidade em si mesma). Não são só alegrias e brilho e certezas e segurança. Há dúvidas, fraquezas e medos.
Mas há também a descoberta de um amor maior do que o universo, muito maior, e este já vai com 24 semanas.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

16s

Faz hoje 16 semanas.
Achei que, passadas as 12 semanas, ia deixar de andar tão de coração nas mãos. Na noite em que completou 12 semanas, depois da luz apagada, respirei fundo. Tão fundo como não me recordo de alguma vez o ter feito, enquanto me encolhia, aninhada nos braços do pai dele. Senti-me em paz e protegida e, mais do que tudo, agradecida por termos passado aquela barreira (que nem sei ainda se tem mais de real ou de psicológica), e dormirmos os três, em paz.
Ainda me soa estranho, por vezes, dizer nós os três...

Os sustos tinham sido muitos até aí. Abrandaram, é um facto.
E estava óptimo(a), segundo a médica.
Mas ainda vivo em sobressalto, ainda tenho um medo, muitas vezes, maior do que o que imaginava conseguir suportar. Suporto-o porque não o faço sózinha, eu sei.
Sorte a minha, pois. Não enjoei o cheiro do pai (ou o pai, em si mesmo) como algumas amigas minhas. Nada me tranquiliza como a presença dele, o contacto, a voz, a pele, a força, o jeito, as palavras. E quando não está, farejo-lhe o cheiro na almofada, no meu pijama, na minha pele. E leio os livros dele, os mesmos que ele leu, e passo os dedos nas anotações que fez, como se o lesse a ele, com a ponta dos dedos.

Sem dar por isso, dou comigo, muitas vezes com a mão pousada, em repouso, sobre a barriga. Já cresceu sim, e já não cabe em nenhuma das calças que usava antes.
A vida, essa, não cabe, também, nos moldes que antes tinha. Mudou tudo. Mas é sempre assim, não é? Uma criança vira-nos sempre a vida de pernas para o ar. E, no meio do turbilhão de mudanças, tudo fica melhor. Tão melhor que nem a nossa imaginação teria conseguido conceber essa realidade.

Ainda nem sabemos se é menino ou menina, os medos ainda cá andam, mas faz hoje 16 semanas e só não vou dizer que é a luz da minha vida porque é muito mais do que isso, e não existem palavras para o(a) classificar.

domingo, 4 de maio de 2008

# 1

Depois de tanto tempo sem escrever, nesta passagem fugaz pela internet, reparo que, apesar de nunca ter tido tantas coisas sobre o que escrever, também não sei o que dizer.
Ou não sei o que dizer, ou não sei como dizer; que é mais essa a realidade.

Não sei mesmo... E não esperava que fosse assim.

Pelo menos digo que estou bem.
Que não tenho escrito porque, entre outras coisas, não tenho tido acesso à net.
Acho que devia isto. E devia-o quase em jeito de pedido de desculpas por este silêncio que tem preocupado algumas pessoas.

Deste lado tem havido alguns sustos, e muitas mais mudanças.
Também posso dizer que me tornei numa pessoa muito mais feliz do que alguma vez imaginei, sequer, que fosse possível ser-se tanto.
Muito feliz e com muita sorte.

Ah! E também que hoje é dia da Mãe e que este ano, bem desde os primeiros raios de luz que entraram pela janela, ele foi o mais especial de todos até ao presente.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Me, myself and...

Eu não sou só eu (eu e todas as outras pessoas). E sou-o menos só eu, do que há uns tempos.
Eu sou eu e as pessoas de quem gosto, as que estão perto de mim e as que estão longe, e que porque não estão perto, estão mais do que isso: estão em mim.
Eu sou eu e as pessoas que fazem parte de mim, neste mundo e no outro.

E por isso, porque eu sou menos só eu, este blog fica mais árido, porque aqui não posso (não quero, não devo, não posso, em suma) ser mais do que só eu. A parte de mim que não sou só eu, fica de fora, e essa, é de longe a melhor, a mais rica delas. De longe!
Eu não sou só isto, e mesmo sabendo eu isso muito bem, assustei-me quando passei os olhos pelo blog. Ele, últimamente, anda de uma pobreza franciscana. Pobreza franciscana no menos bom do sentido dado à expressão (porque é bom que diga que tenho a maior da admiração pela ordem dos franciscanos). Anda árido, básico, pobre e até muito abandonado.

Anda assim, é verdade. É pena também, por um certo lado.
Mas por outro lado, é assim mesmo. Não é mau.
A parte de mim que não sou só eu, é mais pequena. E quanto mais rica é a outra parte, o eu inteiro, o eu que sou eu e quem mais faz parte de mim, mais pobre o blog. Porque esse eu, sinto a necessidade de resguardar.
Como diz o povo, e com isso tanto pode dizer muito como não dizer absolutamente nada: é a vida. E por um lado tenho pena, sim. Pena a sério. Mas por outro, não.

[E pronto. É este o resultado de uma noite mal dormida e cheia de pesadelos. E sim, a falta de tempo também é um factor com algum peso na questão]

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Saudades...

... de ser pequenina.
Hoje sinto-as. Muito.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Roteiros

Perguntem-me o que visitar em alguns sítios e num ápice arranjo um roteiro completo e atafulhado de coisas a conhecer. Três dias em Santiago de Compostela, dois em Vigo, quatro dias em Veneza, outros quatro em Milão (e não mais porque não gosto da cidade), cinco em Florença, oito em Roma. Cheios. E podiam ser mais, se quiserem.
Dias daqueles de aproveitar todos os minutos, andar a correr de um lado para o outro, comer com tempo cronometrado e chegar à noite a cair para o lado de cansaço (cansaço do bom).

Sim. Podem perguntar-me.
Mas não me perguntem o que fazer em Lisboa.
Não consigo olhar para Lisboa com olhos de visitante, descobri esta semana.
E é uma pena, porque sei bem, e todos sabemos, que Lisboa é uma das cidades mais bonitas da Europa, que está repleta de história e cheia de monumentos (os americanos até a elegeram há pouco tempo, como o terceiro melhor destino turístico do mundo.).

Lisboa é a minha cidade. É linda de morrer, tem uma luz mágica e um encanto só dela, mas não sei o que fazer nela, em tempo de lazer. E tem imensas coisas, pois tem. Tem a maior oferta do país, mas é a única cidade onde eu não sei o que fazer com o tempo disponível.
E não vale a pena pensar na zona do Parque das Nações ou de Belém. Lindas, não são?! Mas essas já me são muito familiares.

Não sei o que fazer em Lisboa.
É ridículo e é irritante, mas é um facto.
Por algum motivo se diz que santos da casa não fazem milagres.