segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Sítios bonitos


A Livraria Lello foi apresentada, pelo The Guardian, como a terceira livraria mais bonita do mundo.
Eu acho que deve ser mesmo.

A Livraria Lello é umas das coisas bonitas do Porto. Um dos seus encantos. E eu gosto do Porto.
Os lugares são um bocadinho como os vinhos, há imensos parâmetros para os avaliar, mas o que nos fica na memória é o final de boca. O Porto tem um final de boca longo e redondo. Aveludado e doce.
Sente-se ao fechar os olhos, quando se passa pela ponte que nos afasta do Douro. Sente-se quando se fecham os olhos, dias, semanas, meses depois. Igual. Intenso.

Pois, o Porto é um vinho tinto. Granada, redondo e frutado, cheio de frutos vermelhos. Com umas notas de baunilha - nem muitas nem poucas - apenas as dadas pelo carvalho da pipa. Com pouca queima.

O Porto não é um mono-varietal. Está cheio de equilibrios e complemantariedades. Os taninos e personalidade da Touriga Nacional, a suavidade da Tinta Roriz, a densidade do Castelão, as notas únicas do Pinot Noir, a elegância do Cabernet (e eu, nos vinhos e nos lotes, já estou como o meu pai, afinal).
O Porto tem a Ribeira e as casas em presépio, tem o passeio à beira Douro, as francesinhas do Capa Negra e as gargalhadas até às lágrimas, tem as lágrimas a sério, tem as noites húmidas, as conversas cumplices até o céu começar a clarear lá fora, tem até o arquivo, tem o mar. Pois... o mar... e o que não se revela.

Mas ia eu dizer que o Porto tem a Livraria Lello, onde me levou a minha prima (li há uns anos que primo, é o melhor dos parentescos porque é o único que nos permite escolher quem incluímos e quem excluímos).
Tem, e é, de facto, um sítio lindo, lindo.
Mais templo que livraria.
Especial pela arquitectura, pelos livros que lá se encontram (muitos antigos e raros), pelo ar que lá se respira. Especial, em suma. Ainda bem que foi reconhecido.

(Sim, devia ter links, mas como estavam a dar erro e eu perdi a paciência... vai sem eles. Até porque eu gosto de escrever é sem ter que me preocupar com a forma: links, notas de rodapé...)

Bom tempo

As tardes não estão só maiores. Não se limitam a estender-se um bocadinho mais, de forma a oferecer-nos mais uns instantes de luz.
As tardes estão também mais brilhantes, e a de hoje está tão brilhante, que me soa a prenúncio de Primavera (por muito cedo que o calendário diga que é).
O que me apetecia mesmo era um lanchinho, em boa companhia e tagarelice, numa esplanada com o azul do mar em frente. E mesmo só esse apetite, já me sabe bem.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Implicâncias

Não suporto, mas não suporto mesmo, o anúncio do Banif.
Não o suporto na televisão e não o suporto na net. O primeiro impulso é tirar aquilo da minha frente.

Não suporto. Eu até gosto de cavalos (especialmente da minha égua). E também não tenho nada contra os homens. As duas coisas juntas é que não.
Bem sei... da mitologia... o centauro. E eu até gosto de mitologia, e até sempre gostei dos centauros. Mas cada coisa no seu lugar.
E nem sei bem porque é, mas embirro mesmo com a coisa.

Podia pensar-se que o anúncio afinal resultou, porque reparei nele, estou aqui a perder tempo a falar dele. Mas não, não resultou.
Eu já conhecia o Banif, razoávelmente bem, antes do anúncio. E agora, a primeira reacção ao ouvir a palavra é a mesma que tenho ao anúncio.

Há anúncios tão bons por aí...

( E giro, giro, é que reparei entretanto, num suplemento do "Expresso" que a parte de cavalo do centauro do Banif é, afinal, uma égua. A criatura é, portanto, meio homem (parece), meio égua; meio masculino, meio feminino. muito especial, muito especial mesmo. grandes problemas de identidade deve ter a criatura...)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Coisas de Inverno*

A minha Mãe diz que quando eu era pequenina dava umas noites santas, que adormecia lindamente e dormia toda a noite.
Era, portanto, um descanso.
Não precisava de rituais para dormir, nem de objectos para facilitar o sono, como uma fralda, um boneco específico, as fitas de uma almofada (como o meu irmão). Nada de nada. Chegada a hora, era por-me a dormir, e pronto.

Então e não é que agora, se estiver mais tensa, durmo melhor se segurar um objectivo preciso, no caso uma pedrinha, que no pouco tempo que a tenho, já passou duas noites fechada na minha mão?!
E, para além disto, agora só me sinto reconfortada quando bebo, antes de dormir, uma caneca de leite quentinho, com café (tofina; para ser mais exacta)?! Se não dormir em casa ou se sair e vier tarde, dispenso isto, mas só nestas circunstâncias.
Mesmo sabendo divinamente essa caneca de leite quentinho, bebida devagarinho, quando normalmente já sou a única a pé, espero que estes hábitos recentes desapareçam. Pois se nem em pequena eu tinha estas dependências...
(mas, mesmo sendo agora horas de jantar, só de pensar no leitinho do fim da noite, sinto-me reconfortada...)

* Espero eu!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Amores-perfeitos

Hoje, enquanto esperava a minha vez para ser atendida numa loja onde comprei mais 4 bolbos de túlipas (de umas cores, que se florirem assim, são admiráveis; e da variedade que quero, porque não quero bolbos hibrídos, que para o ano comecem a degenerar), para juntar aos outros 23 que já tinha (plantados), tinha à minha frente, uma velhota que tinha ido comprar amores-perfeitos.

Tinha umas rosetas coradas na face e uns olhos brilhantes como uma menina de 10 anos. Pequenita, tinha um sorriso contagiante, de tão genuíno.
Meteu conversa.
Falou do tempo e do marido; das flores e do marido; dos filhos e do marido; da casa e do marido; do trânsito e do marido; do Natal de agora e do tempo dela e do marido; do acidente do neto e do marido; do casamento da neta e do marido; da loja do filho e do marido; mais das flores e do marido.

Tinha 82 anos, essas rosetas de cores cheia de vida, esses olhos brilhantes de menina e esse sorriso genuíno como vi poucos. E falava do marido com esse ar de criança que acaba de descobrir a maior maravilha do mundo e disse, vezes a que perdi a conta: ...é o melhor homem do mundo...!

E ficava assim, de olhinhos a brilhar, a olhar para mim.
E eu devo ter ficado também de sorriso estampado por ver que afinal existem mesmo amores perfeitos. Podem ser raros, pode até ser único, mas existem e transformam velhinhos em crianças de sorriso rasgado.

Devagar, devagarinho, quase parados...

24 de Julho, Lisboa, noite de Domingo para Segunda, 01:AM, semáforos verdes, ausência total de peões à vista e quase total de viaturas a circular.

Isto tudo e um flash que dispara na escuridão. Sim o carro ia a mais de 50Kms/h, mas pouco mais.
Paparazzi não eram, donde...
Sim, a coisa até tem o seu charme. Principalmente porque nunca tinha experimentado. Uma multa de velocidade (mesmo não sendo eu a guiar) e um flash nocturno de um radar tem o seu encanto, num quase, quase final de noite.

Não era eu que ia a guiar (e ainda bem, porque senão a coisa era bem mais complicada do que a velocidade do carro), mas a culpa é a mesma porque eu devia ter atenção às placas e sim, o radar estava assinalado, e o limite de 50Kms/h também.

Ora, se não é exagero o que é aquilo?! Mas que mal faz circular na 24 de Julho naquelas condições àquela velocidade?
E mal refeita disto, fica-se a saber que o limite agora, dentro das povoações é de 30Kms/h.

30Kms/h?!?! Querem que as pessoas atravessem Lisboa a essa velocidade (isto quando não estiverem presas nas filas de trânsito)?! Mas quanto tempo demorará agora conseguir tal façanha?
Mas há necessidade disto?

Não sou adepta da velocidade mas já me tem acontecido andar de bicicleta (em piso plano) a um bocadinho mais do que 30Kms/h. Se passasse por um desses radares, de noite, teria direito a mais um flash.
Assim, mais vale mesmo andar a pé.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Banda sonora para uma noite de chuvisco

(...) Daylight licked me into shape
I must have been asleep for days
And moving lips to breathe is name
I opened up my eyes
And found myself alone alone
Alone above a ranging sea
That stole the only boy I loved
And drowned him deep inside of me (...)

Just like heaven. Porque sim, porque a Katie Melua assenta bem em noites de Inverno. Apenas por isso. Nada biográfico, portanto.
Por acaso, até nem me sinto nada perto do céu. Também já há muito tempo que não me sentia assim, que não me sentia tão longe dele (do céu).

Sábado ou Domingo

Este Sábado parece-me Domingo. Um Domingo à tarde, silêncioso e lento. Palavra que já me enganei e declarei, com segurança, que hoje era Domingo.

Acho que foi porque ontem mal consegui trabalhar, e porque há duas noites que quase não durmo. Por isso e por causa desta dormência dos medicamentos e de quem espera que o tempo passe para, com ele, levar febre, dores e mal estar.

Detesto ir ao médico, passo anos sem lá ir. Mas no ano que passou, vi-me obrigada a ir umas quantas vezes. Não sei bem quantas, e embora pudesse, com um pequeno esforço, contá-las mentalmente, não quero.
Por mim não teria ido, mas acho que devo dar graças a Deus por ter quem me tenha obrigado. Sabendo que tinha de ir, mas não querendo ir, o melhor que me podia acontecer era ter com quem teimar e dizer que não, que não ia, que não queria, e ter a certeza que ia, porque tinha que ir e não me seria dada a possibilidade de não ir.
Às vezes é bom ter quem mande em nós o suficiente para nos obrigar a fazer o que deve ser feito (e para nos amparar quando isso nos dói muito).

Ontem fui. E não foi preciso mandarem-me. Fruta da época: a garganta. E mais um extra, esse sim, mais doloroso, uma inflamação num nervo (a que ontem chamei, repetidamente, musculo).

E hoje, passa-se assim, vagarosamente e cinzento. Umas horas na cama, outras levantada por casa. Lê-se blogs que não se conhece e bebe-se um cappuccino (muito) quente, com o comprimido da tarde.
Não é mau de todo um Sábado assim. Este não-fazer-nada sem sentir qualquer obrigação de fazer alguma coisa é bom, e eu já nem sei quando foi a última vez que o senti.
E a febre dá sinais de se ir embora, o nariz pinga menos, a garganta já quase não dói. Apenas a dor (forte) no nervo persiste (e persistirá por mais algum tempo).

Há um tédiozinho nisto. Há uma frustaçãozinha também, de quem não pode ir onde gostava de ir hoje, mas também a tranquilidade de ter uma justificação para não ir onde não queria ir.

Não é mau, este dia assim. Mas já não sei bem o que fazer, quando não é preciso fazer nada.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Das coisas que funcionam

Ontem à tarde, mas mesmo assim ao final da tarde, aproximou-se uma trovoada. E eu costumo ser cautelosa. Uma cautela assim feita de experiências vividas nestes assuntos, de avarias em pc´s e outras máquinas e de modems estragados por trovoadas. Por isso costumo, nestas situações, desligar o computador, e desligar mesmo a ficha da tomada e desligar o modem do micro-filtro, porque sei muito bem que se não for assim o desagradável pode acontecer.

Mas ontem não. Não estava para aí virada.
Os clarões dos raios eram visíveis e o ribombar dos trovões era bem audível, mas eu estava ocupada, tinha uns mails para mandar, o dia de trabalho estava a chegar ao fim e por isso, não me apetecia desligar o computador e ficar com aquilo para fazer depois da hora, ou mesmo hoje.
Portanto, não desliguei, pensando... é só mais um bocadinho.
Só que nesse bocadinho, fez-se um clarão na secretária e ouviu-se um estalo mesmo do meu lado direito. O modem começa a piscar e acabou-se. Morreu assim.

Ora, já escuro, ligo para os senhores da telepac, e eles fazem uns testes na linha, que estava, operacional. E dizem que não é da linha (isso já eu tinha percebido) e que vão reportar a avaria e tal, e que depois, mandam cá um técnico de acordo com a disponibilidade do mesmo.
E eu fico a pensar: ora estamos mesmo no final de quinta-feira, hoje não conta; amanhã é sexta e devem ter imenso que fazer, depois é o fim de semana e, se tiver sorte, talvez na segunda ou assim, me resolvam isto.

Pois não foi assim. Hoje de manhã, telefona-me um senhor da telepac, a perguntar se podia passar por cá, imediatamente a seguir.
E veio, e esteve cá toda a manhã, mas ficou resolvido.
Eu ligo ontem ao anoitecer e hoje logo de manhãzinha resolvem o problema?!
Há coisas a funcionar bem neste país... pena é que causem tanta estranheza que nos levem a reparar assim nelas e a comentar o sucedido.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Torradinhas

Uma amiga disse-me, há pouco tempo, durante uma conversa de meninas, que um dos parâmetros que nos permitiam perceber o quanto gostamos de alguém é o que ela chama de parâmetro das torradinhas.

Diz ela que, normalmente, não temos gosto nenhum em andar a fazer cházinhos, aquecer leitinho e fazer torradinhas para outras pessoas. Afinal que gosto pode dar-nos termos trabalho?!
Mas quanto gostamos, isso transforma-se, e passamos a apreciar fazer essas coisas.
Segundo ela, quando ainda mais do que o gosto, é uma compulsão que sentimos para fazer cházinhos em caso de constipação, aquecer copinhos (ou canecas) de leite, e fazer torradinhas só porque sim, então é porque gostamos mesmo dessa pessoa.

Na minha família mais próxima, criou-se a crença que eu tinha uma espécie de talento - mais uma inerência - de fazer cházinhos e zelar pela toma dos medicamentos, quando alguém está doente.
Criou-se essa ideia e é verdade que, se ninguém o fizer, eu faço porque acho que tem de - deve - ser feito. Mas se a minha Tia-avó M., que me fazia isso a mim, e passava horas seguidas à minha cabeceira quando eu tinha qualquer coisinha, já não está entre nós e se, desde essa altura, ninguém (no núcleo familiar de sangue) demonstra o mais pequeno cuidado, ou mesmo interesse, comigo nesse sentido, porquê que eu hei-de andar a orbitar em volta de alguém que não tem mais do que uma pequenina gripe? Porquê que hei-de ser eu a preocupar-me com os horários dos medicamentos (sem importância, no caso) e ter de os dar à boquinha da pessoa, e fazer cházinhos, e aquecer água para beber, e baixar o nível do termómetro, e ser eu a ver a temperatura que marca, e ser chamanda por tudo e por nada? Porquê?? E tudo isto sem nem um obrigado?! E tudo isto num tom, como se não fizesse mais do que a minha obrigação?! E não; essa obrigação, a existir (e não existe, porque não é caso para isso), não seria minha.

Pois acho que essa minha amiga tem razão. Há por quem seja um suave e prazenteiro gosto fazer torradinhas e por-lhas à frente. Um deleite mesmo.
E há por quem se tenha tornado um frete sem sentido.
Acho que o parâmetro das torradinhas existe mesmo.

domingo, 30 de dezembro de 2007

Feliz 2008!

Quando era pequenina ficava sempre um bocadinho triste porque na minha cabeça, aquela estória do novo ano, bebé, e do velho ano, velhinho e cansado, vergado pelo tempo, que nos deixa, sem que ninguém se compadeça dele, tinha o seu efeito em mim.
Pequena demais para entender metáforas, mas crescida o suficiente para entender o significado das palavras e o seu conteúdo, esfalfava-me à procura do velhinho abandonado que ninguém queria.
Quando, um ano, lá expliquei porquê que andava tão afincadamente às voltas do tronco do freixo e do eucalipto (vá-se lá perceber porquê, mas achava que seria por ali que o tal velhinho se ampararia antes de desaparecer para sempre), explicaram-me que a coisa não era bem assim, e que não havia velhinho nenhum, mas também se riram muito à minha custa.

Passados os anos, e sabendo muito bem que não existe velhinho nenhum (nem bebé nenhum, também), fica sempre uma nostalgiazinha pelo ano que nos deixa. Gosto do 7. Gosto do número. É até um número cabalistico, tem um significado especial. Chegada ao final deste ano, sei muito bem que tem um significado muito especial mesmo. Mas isso é pessoal.

Não foi um ano fácil. Já não me lembro de quando tive um ano fácil, também. Mas isso não me importa. Se mo perguntassem agora, diria que foi o mais duro de toda a minha vida. Mas não digo, porque talvez o tempo suavize as dores e as memórias, e daqui a algum tempo, tudo quanto ainda tem arestas tão asperas se torne mais suportável. Há perdas que não se podem compensar (mas que, com ajuda, afinal, se podem adoçar um bocadinho). E, infelizmente, só quando elas acontecessem nos deparamos com a dimensão inimaginável que têm.

Mas foi um ano muito especial. Talvez o melhor de todos, até agora (eu sei que parece contraditório, mas não é).
E, no fundo, é mesmo isto que há a reter.

Todos os anos, me baralho com as passas e os desejos. Perco-me na conta, perco-me nos desejos, confundo-me, e para além da dificuldade em engolir as passas (de que nem gosto, diga-se) não sei bem o que peço. O normal, acho. Mas sei que sobram sempre passas e badaladas.
Sempre me disseram que não sei pedir, nem deixo que me ajudem.

Apesar da tal nostalgia pela velho ano e apesar de sempre ter gostado, e continuar a gostar do número 7, acho que me vou deixando enternecer pelo número 8.
Nunca lhe achei graça, mas agora olho-o e vejo-o redondinho, rechonchudo e risonho, como esse tal bebé de ano novo, e apetece envolvê-lo num xaile de lã macio e quente, e aconhegá-lo ao colo. Este oito redondinho, desperta-me um sorriso e a minha parte boa.

Conquistada pelo que o ano de 2007 me trouxe, conquistada pelo que me tirou, conquistada com o que ficou, e ficará sempre, depois de tudo; desta vez, acolho de boa vontade e braços abertos este 2008. Sem euforias, mas sem amarguras. Em paz.

E este ano, não vou tentar engolir todas as passas, nem fazê-las coincidir com badaladas, nem vou pedir desejos.
Minto. Vou pedir sim. Vou pedir aquilo que já peço, agora: vou pedir que não volte a magoar quem gosto, que consiga sempre compreender os verdadeiros sentimentos e motivações por detrás das palavras que não entendo ou dos gestos que não percebo, vou pedir que não volte a ser precipitada nem injusta, nunca. Vou também pedir que consiga ter a capacidade de aceitar tudo o que a vida me der sem medos. Sem aqueles medos incontroláveis e medonhos que nos impedem de viver as coisas.
E não vou pedir mais nada, porque aprendi este ano, que não vale a pena pedir, porque, de facto, não sei fazê-lo. Não vou pedir porque este ano recebi muito mais do que poderia ter pedido. Porque nem sabia que podia pedir, porque nem sabia que algumas coisas existiam. Como é que se pode pedir o que não se conhece nem imagina? Não vou pedir, porque recebi muito mais do que alguma vez podia ter pedido. É isso.

Estamos quase a entrar no último dia de 2007, e se é altura de mudar de ano, que venha então o 2008!
Feliz Ano Novo!
Feliz 2008!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Não sei bem que título pôr...

Ouço o telemóvel tocar e olho em volta. Não o vejo.
Procuro com mais atenção sobre a secretária e não o encontro. Ele continua a tocar, e eu a ouvi-lo perto.
Olho para a estante ao lado, e não o consigo ver.

Levanto-me, olho em volta e nada. Ele continua a tocar. E eu ouço-o perto.
Rodo sobre mim mesma e procuro ver onde pode estar, e de onde vem o som.
Dou uns passos e o som acompanha-me. Mas eu não o vejo nem imagino onde possa estar, e isso incomoda-me.

Levo a mão ao bolso e estava lá. O telemóvel estava no bolso. Esteve sempre ali, claro. E eu como uma tonta à procura dele, e com ele no bolso a tocar.
Uma daquelas coisas que só podem acontecer aos outros.
Uns diazitos de férias não fariam mal, não...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

The day after

A tentar retomar a normalidade.
Não está ser fácil.

Ainda há demasiados vestígios e despojos destes dias.

Ir dormir mais cedo hoje e ler um bocadinho na cama, vai-me saber pela vida.

(Tenho muita pena de, neste Natal, não ter tido a capacidade de gerir o tempo de maneira a conseguir desejar um Feliz Natal a todas as pessoas que queria - e que mereciam. O Natal foi aquele que era possível que tivesse sido, mas isto, devia ter sido diferente.)

domingo, 23 de dezembro de 2007

Feliz Natal


Amassei os shortbread e cozem no forno a esta hora.
Amanhã, ainda de manhã, vou preparar raspas de laranja e limão, amassar farinha com açucar e ovos e abóbora cozida e aguardente. Depois vou afabar a massa e esperar que levede. Finalmente, já da parte da tarde, e já com mais gente em casa, fritarei as filhoses e o cheiro do Natal, espanha-se já pela casa.

Amanhã, durante a noite, entre a lenha do costume, arderá um tronco grande - tão grande quanto a lareira o permitir - e um resto dele, um pedaço de carvão, será guardado para se juntar ao lume do Natal do próximo ano.

Durante a ceia, arderão velas sobre a mesa, porque é assim que deve ser.
E mesmo que se retire da mesa todas as comidas, e todos os bolos, entres eles os bolos-reis, broas e filhoses, permacerão sobre a mesa os shortbread até ao fim do dia 25.

E no meio da confusão e do desgaste que se instalou nesta época, procuro alhear-me de quase tudo e prendo-me ao Natal através das mãos enfarinhadas.
É de farinha e açucar (entre outras coisas) que é feito o meu Natal, é de farinha e açucar a ponte que me leva às raízes, ao shortbread da Escócia, às filhoses da Beira (da Beira, de perto de Coimbra), aos mexidos do Minho (de Barcelos). E, de mãos assim enfarinhadas, como por magia, não existe distância nem tempo.
Eles, todos os eles, os que partiram há muitos séculos ou há muito pouco tempo, estão aqui, e eu estou lá com eles, eu faço parte deles e eles parte de mim.
E a separação que é feita de tempos e de espaços desaparece. De mãos assim enfarinhadas, não há ausências.
Não sei se são as minhas mãos que amassam ou as deles, nem sei se aprendi a fazer estes bolos, ou se esse saber fazia parte de mim. Faço-os a olho, e repito gestos e rituais como se me fossem inatos.

É de farinha e de açucar que é feito o que me aconchega no Natal, o que junta o passado todo, inteirinho, com todas as pessoas que lá moram, com o futuro feito de risos de crianças de gerações que não conheço, mas que quase ouço, com as mãos enfiadas em farinha e açucar.

É de farinha e açucar que é feito o meu milagre de Natal.
E porque o Natal é feito disto mesmo, de milagres, de luz, mesmo que nem sempre seja fácil vê-los, porque o Natal celebra o milagre da Vida (mesmo quando tudo possa parecer, aparentemente, escuro e sem sentido), porque esses milagres existem mesmo, desejo a todos um muito Feliz Natal!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Destes dias...

Não é bonito dizer-se que não se gosta do Natal. E também não é isso que diria. Mas não gosto destes dias que correm.
Não gosto. Não me sinto bem neles. Não me encontro e desde que me levanto até que me deito, não consigo mais do que uma vã tentativa para me equilibrar entre o que tenho a fazer, as horas que me escorrem por entre os dedos e, se tenho de sair, o frustante esforço para não me sentir completamente desnorteada entre as ondas imensas de pessoas que se acotevelam em redor e dentro das lojas, enquanto eu tento, apenas, e a custo - muito custo - fazer aquilo a que sou obrigada.

Nestes dias nem devia ter agenda. Já o tinha percebido nos anos anteriores, e este ano ainda mais.
Chegada a Dezembro, e ao seu primeiro feriado (de que gosto, e o qual respeito muito), devia, pura e simplesmente, (não digo deitar fora, porque me custa fazê-lo, mas...) atirar a agenda para dentro de uma gaveta onde pudesse viver longos anos sem que voltar a encontrar-me.
É que não adianta nada programar as coisas. Por uma qualquer arte mágica que desconheço, a partir desta data, não consigo fazer nada daquilo a que me proponho ou daquilo que queria fazer, e limito-me a fazer as coisas urgentes e inadiáveis que surgem (multiplicadas por 100) nesta época (não sei bem porquê, também).

Não tenho tempo para o que queria, e menos ainda para quem eu gosto. Não consigo sair com as amigas, nem mesmo tempo para conversas (a que se possam chamar conversas ao telefone). Chegada a véspera de Natal, mal consigo responder às sms.
E no fim do dia de Natal, ao deitar a cabeça na almofada, confesso, envergonhada, que respiro sempre de alivio por já ter passado.

Não é que não dê valor ao Natal, porque dou, porque tive Natais de que tenho muitas saudades, porque ainda acredito que um dia os Natais voltem a fazer o mesmo sentido.
Acredito, sobretudo, no verdadeiro significado do Natal, aquele que me parece que está esquecido da maioria das pessoas que se agitam como formigas num formigueiro, na azáfama das compras.
E não é que não faça compras também. Tem de ser não é?! Pois, faço-as.
Mas mais fácilmente compro uma coisa para alguém por quem não nutra um especial afecto, mas a quem tenha a obrigação de presentear, do que para alguém de quem goste profundamente.
Para estas pessoas, para aquelas de quem gosto de verdade, se puder, prefiro comprar noutra altura, porque sim, porque me apeteceu, sem obrigação de parte a parte, sem ser esta troca obrigatória de objectos que se estabeleceu nesta época.

Nestes dias, lembro-me muito das pessoas de quem gosto. E lembro-me mais ainda das pessoas de quem gosto e que não posso ter comigo.
E nestes dias, deste ano, sinto muito uma falta. Muito.
Uma falta que chega a doer, de uma dor que chega a ser física e que parece que não cabe cá dentro.
Nestes dias, de celebração da vida e do nascimento, lido muito mal com a perda e a morte.
Estes dias, este ano, estão a custar-me muito.